Cineprojeto 365

13 junho, 2007

Os Quatro do Apocalipse (I Quattro dell’apocalisse / The Four of the Apocalypse / Four Gunmen of the Apocalypse / Four Horsemen of the Apocalypse)

Filed under: Sala de Tiro — cineprojeto365 @ 2:43 pm

(originalmente publicado no extinto site Erotikill)
4apocalypse.jpg

Direção: Lucio Fulci
Elenco: Fabio Testi, Lynne Frederick, Michael J. Pollard, Harry Baird, Adolfo Lastretti, Bruno Corazzari, Giorgio Trestini, Donald O’Brien, Tomas Milian
Ano: 1975
País: Itália
Duração: 104 min

O ciclo italiano de faroestes tem vários títulos interessantes que merecem ser conhecidos por qualquer fã de cinema. Não seria exagero nenhum dizer que “Os Quatro do Apocalipse” é um deles. Mesmo que o estilo já estivesse apresentando sinais de desgaste em 1975, Lucio Fulci – que na época nem sonhava em ser cultuado como diretor de filmes de terror – realizou um espetáculo memorável, violento (é lógico…) e muito anti-convencional. Tanto que devo assumir que o filme deve desagradar a vários espectadores.

No início, vemos o galante jogador de cartas Stubby Preston (o ótimo Fabio Testi) chegando na cidade de Salt Flat, em Utah. O sujeito mal desce da carruagem e é logo abordado pelo xerife (Donald O’ Brien, em participação especial), que revira as suas coisas e o prende. Na cela, ele conhece a prostituta Bunny (a bela Lynne Frederick), o alcoólatra Clem (Michael J. Pollard, figuraça) e Bud (Harry Baird), um homem negro que não gira muito bem da cabeça e diz conversar com os mortos. Durante a madrugada, um grupo armado e encapuzado extermina sumariamente todos os criminosos que estavam se divertindo nos bares. Só pela violência desta seqüência em particular (aqui, os tiros sangram mesmo!!), já podemos notar que estamos assistindo a um faroeste sem o menor tradicionalismo.

Na manhã seguinte, e mediante o pagamento de uma forçada propina ao homem da lei, Stubby e seus três novos companheiros partem numa velha carroça a caminho de Saint City, onde conhecerão várias pessoas. Enquanto continuam o seu trajeto, eles cruzam com Chaco (o cubano Tomas Milian, sempre presença) um tipo estranho, de boa pontaria e que se veste como um “hippie”. Amizade, companheirismo, drogas, estupro, ódio, romance, tortura, vingança e até mesmo canibalismo são algumas das coisas e sentimentos que estarão presentes durante toda a jornada dos personagens principais. Há ainda espaço para simbolismo religioso, quando os personagens principais entram numa cidade dominada pela neve, algo que chega a lembrar o inesquecível “O Vingador Silencioso”.

O leitor deve ter notado que “Os Quatro do Apocalipse” são, na verdade, esses quatro perdedores. Protagonistas de uma espécie de “road-movie” no Velho Oeste americano, Stubby, Bunny, Clem e Bud vivem à mercê do destino e arriscando as suas vidas a todo instante. Chaco aparece querendo se juntar ao grupo, prometendo que não faltará comida enquanto ele estiver com o quarteto, pelo fato de ser um exímio atirador. Todos aceitam, sem sequer imaginar os infortúnios que terão de enfrentar por causa dele. Os pobres acabaram se esquecendo daquele velho ditado popular: “De boas intenções, o inferno está cheio”. Naquela que talvez seja a cena mais comentada do filme, nós vemos o quanto Chaco é cruel. Depois de efetuar um disparo certeiro em um xerife (Lorenzo Robledo, não creditado, que também sofre no clássico “Por Uns Dólares a Mais”) que os perseguia, ele o amarra numa árvore e começa a arrancar tiras da pele do coitado com uma faca!!

“Os Quatro do Apocalipse” respira anos 70, provando que o cinema é uma arte que expressa o momento histórico, social e cultural da época das suas produções. Tomemos a trilha sonora e o psicótico Chaco como exemplo. A maioria das músicas compostas por Fabio Frizzi, Franco Bixio e Vince Tempera são bem “hippongas”, cantadas e viajantes. Muitos as consideram um ponto fraco (eu, inclusive), mas pode-se até dizer que sem elas o filme não teria a sua constante e eficiente atmosfera de estranheza. Quanto ao personagem de Milian, só quem não prestar atenção deixa de perceber que ele foi inspirado em Charles Manson, o sádico responsável pelo assassinato da linda atriz Sharon Tate, que estava grávida do seu marido Roman Polanski.

O resultado final é uma produção única (assim como várias outras…) da extensa filmografia de Lucio Fulci, por ser um dos poucos filmes que conseguem ser bonitos, mesmo tendo a sua elevada dose de violência. Merece muito ser conhecido, e caso você acabe não gostando, acredito que as atuações e algumas belas imagens registradas pela câmera de Sergio Salvati possam muito bem compensar o tempo do espectador.

NA: O DVD nacional lançado pela Works é recomendadíssimo, apesar da costumeira ausência de extras. Apresentado em sua melhor versão, numa cópia integral com imagem em widescreen anamórfico extraída do disco da distribuidora americana Anchor Bay, o disco é uma bela aquisição que pode ser encontrada nas Lojas Americanas por meros R$ 9,99.

Osvaldo Neto

Anúncios

Keoma

Filed under: Sala de Tiro — cineprojeto365 @ 2:10 pm

(originalmente publicado no extinto site Erotikill)
keoma.jpg

Direção: Enzo G. Castellari
Elenco: Franco Nero, William Berger, Olga Karlatos, Gabriella Giacombe, Orso Maria Guerrini, Antonio Marsina, Joshua Sinclair, Donald O’ Brian e Woody Strode
Ano: 1976
País: Itália
Duração: 102 min

Na metade dos anos 70, a era dos bangues-bangues italianos já estava entrando em decadência. Com a ausência de filmes realizados pelos seus maiores expoentes, os três Sergios (Leone, Corbucci e Sollima), o ciclo passou a apresentar cada vez mais produções ausentes de criatividade e inovação. Lógico que existiam algumas raras exceções, como o violento e anti-convencional “Os 4 do Apocalipse”, realizado por Lucio Fulci em 1975. No entanto, elas não conseguiriam tirar o subgênero do ostracismo.

Foi quando Franco Nero, Enzo G. Castellari e Manolo Bolognini, (produtor de “Django”, o clássico de Sergio Corbucci que fez Nero ficar mundialmente conhecido) se reuniram com a intenção de realizar aquele que seria o último dos Spaghetti Westerns, devido ao declínio do estilo. Isso só não foi possível porque depois deste filme vieram outros como “Vingança Cega” (Mannaja / 1977) de Sergio Martino e “A Volta do Pistoleiro” (China 9, Liberty 37 / 1978) de Monte Hellman. O astro Giuliano Gemma ainda atacou com “Sela de Prata” (Silver Saddle / 1978) de Lucio Fulci. Enfim, “Keoma” pode até não ser o último dos Spaghetti Westerns, mas com certeza tem tudo para ser tido como um dos últimos (senão o) dos clássicos desta época inesquecível do cinema italiano.

Mal o longa começa e vemos o quanto Castellari estava inspirado. As primeiras imagens mostram – através do bater e voltar constante de uma porta – um sujeito andando a cavalo em nossa direção. O espectador percebe aos poucos que o homem (Franco Nero) se encontra numa verdadeira cidade fantasma, daquelas cobertas por neblina e sem o menor sinal de vida. É quando uma velha misteriosa (Gabriella Giacombe) o aborda e ambos travam um diálogo – sabido de cor e salteado pelos fãs – fazendo com que ele parta logo em seguida. A anciã acaba sendo deixada para trás gritando desesperadamente “KEOMA!! KEOMA!! KEOMA!!” e surgem os créditos iniciais com o personagem cavalgando sem destino ao som da famosa (e detestada por algumas pessoas) música-tema.

Keoma é filho de Shannon (uma bela participação de William Berger) com uma índia e criado com a ajuda de George (Woody Strode, ator que fez sua fama em faroestes marcantes como “Os Profissionais”), um escravo negro. Muitos anos depois, quando o meio-índio volta a sua cidade natal – e tudo aquilo descrito acima acontece – desejando reencontrar estas duas pessoas figuras paternas após batalhar na Guerra Civil, percebe que ela está dominada pelo opressor Caldwell (o malvadão Donald O’ Brien) e que seus três meios-irmãos Butch (Orso Maria Guerrini), Sam (Antonio Marsina) e Lenny (Joshua Sinclair) estão entre os muitos capangas do poderoso homem. Cabe a Keoma lutar contra Caldwell, que ordena a desumana transferência de pessoas portadoras ou suspeitas de ter “a peste” para uma velha mina (entre elas, temos uma mulher grávida interpretada pela grega Olga Karlatos, protagonista da cena mais famosa de “Zombie”), defendendo os populares da exploração dos bandidos e conseqüentemente, contra o trio de pistoleiros.

Com um roteiro possuidor de todos os requisitos para uma clássica trama do gênero, um elenco dos sonhos de qualquer fã do gênero, uma bela cinematografia a cargo de Aiace Parolin, uma trilha sonora interessante e estranha (composta por Guido e Maurizio De Angelis, cantada em sua maioria e que – um tanto desnecessariamente – narra eventos do filme) ao mesmo tempo e cenas inesquecíveis, Enzo G. Castellari realizou uma obra notável. O diretor, que ficou mais conhecido pelas suas pérolas oitentistas como “Fuga do Bronx”, “Guerreiros do Futuro” e “1990 – Os Guerreiros do Bronx”, sempre demonstrou talento na narrativa das suas produções. Em “Keoma”, conhecemos um pouco da infância do personagem principal através de flashbacks, que revelam um pouco do seu relacionamento com o pai, o escravo e o sofrimento causado pelos seus meios-irmãos, tentando justificar as suas atitudes. Através deles, sabemos que Butch, Sam e Lenny nunca gostaram de Keoma desde o primeiro dia em que ele foi residir na fazenda do pai após sobreviver a um massacre na sua tribo e ser resgatado pelo próprio, pois acreditam que o “índio maldito” roubou grande parte do amor paterno destinado a eles. Então, nada mais normal do que os quatro entrarem em conflito quando adultos.

Há várias referências e a maioria delas remetem ao bom e clássico faroeste americano no roteiro (onde Luigi Montefiori, mais conhecido como George Eastman, astro dos exploitations italianos e queridinho de Castellari e Joe D’Amato, é autor do argumento e co-roteirista) e na direção. A começar pelas famosas cenas de violência em câmera lenta – como a inesquecível morte do primeiro bandido executado por Keoma, onde vemos o sangue, literalmente, voar dos buracos efetuados pelo disparo – homenageando Sam Peckinpah e que viraram marca registrada de Castellari. Shannon, o ex-pistoleiro bom e justo, é simplesmente um Shane (quem gosta mesmo de bangue-bangue e não reparou na semelhança do nome, merece levar um peteleco daqueles na orelha!!) envelhecido. A forte presença de Woody Strode no elenco de qualquer bangue-bangue italiano (incluindo “Era Uma Vez no Oeste”, uma das obras-primas de Sergio Leone) prova a influência destes realizadores e reforça a de Castellari e Eastman, por alguns dos clássicos americanos, principalmente os de John Ford. Tem ainda a velha aparecendo constantemente para o herói, considerada um misto da Morte em “O Sétimo Selo” e da bruxa de “Macbeth”.

Quem não estiver gostando do que está assistindo, poderá se redimir nos últimos 40 minutos. Além da famosa cena dos quatro dedos, eles contém uma seqüência com 10 minutos de ação ininterrupta onde Keoma, George e Shannon combatem Caldwell e seus homens. Nesse inteirim, o protagonista também enfrentará seus meios-irmãos. Neste momento em especial, dirigido de maneira totalmente inesperada e com excelente uso do som, a violência é utilizada para fazer o espectador refletir sobre a importância da vida. Bravíssimo, Sr. Castellari.

Quando Keoma chega ao fim, fica fácil entender o motivo pelo qual ele continue sendo considerado de grande importância para os fãs de faroeste italiano e alguns estudiosos da sétima arte. Longe de querer ser comparado aos ídolos, Enzo G. Castellari nos deixou um filme especial que, embora tenha suas falhas, foi explicitamente feito por quem ama o gênero para outras pessoas que compartilham o mesmo sentimento. Imperdível.

NA: Entre os fãs de Castellari, talvez o mais famoso seja Quentin Tarantino, que trabalhava numa locadora antes da fama e assistia a qualquer coisa lançada enquanto atendia os clientes. O seu próximo projeto após o aguardado “Grindhouse” deverá ser “Inglorious Bastards”, supostamente baseado na aventura de guerra de mesmo título dirigida por Castellari e que tem Bo Svenson e Fred Williamson no elenco. Aliás, nos filmes de (ou com o dedo de) Tarantino, o que não falta no elenco é figurinha carimbada do cinema exploitation, seja ele italiano ou americano. Em Kill Bill, podemos ver Svenson sendo o padre do casamento da Noiva e em Um Drink no Inferno, temos Williamson interpretando Frost.

Osvaldo Neto

12 junho, 2007

Blast! (Blast!)

Filed under: Sala de Tiro — cineprojeto365 @ 8:23 pm

(originalmente publicado no extinto site Erotikill)
blast1ur7kb.jpg

Direção: Anthony Hickox
Elenco: Eddie Griffin, Vinnie Jones, Breckin Meyer, Soup, Shaggy, Nadine Velazquez, Hannes Jaenicke, Tommy ‘Tiny’ Lister, Warwick Grier, Vivica A. Fox, Nicky Andrews, Paul Du Toit, Langley Kirkwood, Dean Slater
Ano: 2004
País: EUA/Alemanha/África do Sul
Duração: 91 min

O atual cinema de entretenimento se encontra repleto de diretores sem qualquer senso de como se deve contar uma determinada história. Eles são os responsáveis pela proliferação de tantas produções destinadas a públicos menos exigentes em conferir uma boa narrativa. Infelizmente, a juventude está tão acostumada a sair de casa para assistir longos videoclipes filmados em película exagerando nos planos fechados, cortes rápidos e cheios de tiros, explosões e belas modelos seminuas (ei, isso é bom!) divulgados como filmes de ação. O sucesso garantido de bilheteria faz com que os produtores contratem estes verdadeiros paus mandados que sequer nutrem a menor admiração pelo cinema. “Blast!” não é nenhuma maravilha da sétima arte, por ser uma simplória e ligeira diversão com um elenco mais interessado em curtir as filmagens do que atuar. Mas ao assistí-lo, fica claro que ele seria mais uma bomba se não fosse pela condução de Anthony Hickox.

A introdução mostra o bombeiro Lamont Dixon (Eddie Griffin) tentando salvar a vida do seu parceiro e melhor amigo durante um grande incêndio, porém seus esforços são insuficientes. Os anos se passam e vemos que Dixon conseguiu a guarda de Eric (Nicky Andrews), o filho do falecido. Ele é contratado pelo inescrupuloso Heller (o alemão Hannes Jaenicke, presente em vários “direto-para-vídeo” americanos, principalmente os de Fred Olen Ray e Jim Wynorski) para rebocar uma plataforma localizada na costa californiana numa véspera de Natal. No lado de fora, e como de costume, há ambientalistas e simpatizantes protestando contra a saída da navegação.

Quem lidera um destes grupos é o famoso Michael Kittredge (Vinnie Jones, um dos “não-atores” mais bacanas do cinema atual). Depois de tudo, Kittredge inicia outro protesto em um barco, onde ocorre um incêndio acidental. Dixon e seu pessoal se empenham e conseguem salvar todos aqueles que estavam na pequena embarcação. Porém, os resgatados, apesar de se dizerem ambientalistas, possuem intenções nada pacifistas e fazem vários reféns. Não precisa ser gênio para adivinhar que Dixon é uma das poucas pessoas ausentes no momento onde tudo começou e que será ele quem surpreenderá os vilões por enfrentá-los utilizando seu treinamento militar. Entre eles, além de Kittredge, temos um branquelo (Breckin Meyer) chamado Jamal, a latina Luna (a gatinha Nadine Velasquez) e Smiley (Tommy “Tiny” Lister, aquela figura carinhosa de sempre). Heller negocia a situação acompanhado dos agentes federais Reed (Vivica A. Fox) e Phillips (Langley Kirkwood, do tosco “Drácula 3000”).

A partir daí, o filme se torna outra variação de “Duro de Matar”, pelo fato de termos aqui o roteirista do próprio, Steven E. de Souza, mais uma vez escrevendo uma trama – baseada por sua vez num telefilme alemão intitulado “Operation Noah” – com várias características deste clássico do cinema de ação. E os clichês do gênero são constantes: Há o típico capanga babaca (preciso mesmo dizer quem o interpreta no filme?), os agentes que ficam resolvendo tudo numa salinha (geralmente, são papéis que só precisam de uns dois dias de filmagem), as situações envolvendo reféns e o garotinho, os bandidos ameaçando e matando vários inocentes, um homem contra todos os inimigos… enfim, mais fácil para Souza desenvolver o material impossível.

Mesmo tendo atores famosos, nota-se que o filme foi feito com o orçamento padrão da maioria dos “direto-para-vídeo” da Nu Image/Millennium Films e Hickox acabou se rendendo ao uso de trechos de outros filmes na montagem, assim como Wynorski e Olen Ray, para baratear os custos da produção. A utilização de “Cortina de Fogo” é notada logo no início, na seqüência do incêndio e quando entram caças aéreos no final a palavra “Maverick” pode ser lida num deles. Maverick é nada menos que o personagem de Tom Cruise em “Top Gun”.

Enfim, “Blast!” não apresenta nenhuma novidade. Ele tem o típico pirralho chato, alguns furos (um dos capangas principais simplesmente desaparece no decorrer do longa), e ainda leva Eddie Griffin, um sujeito baixinho e de voz divertida de ser ouvida, a sério como herói de ação! Anthony Hickox devia saber que isso é algo impossível quando o escalou, já que o “desempenho” do ator certamente ajuda na diversão. E quem acompanha a sua carreira sabe que ele dá um banho em muitos outros diretores de filmes do gênero pelo seu talento narrativo e criatividade para contornar as limitações orçamentarias. Portanto, caso alguém não tenha nada melhor para fazer numa tarde de sábado ou domingo e está a procura de um filminho de ação rápido e bem realizado, “Blast!” poderá agradar em cheio.

Osvaldo Neto

Conflitos Internos (Mou gaan dou / Wu jian dao / Infernal Affairs)

Filed under: Sala de Tiro — cineprojeto365 @ 8:05 pm

(originalmente publicado no extinto site Erotikill)
infernalaffairs.jpg

Direção: Andrew Lau e Alan Mak
Elenco: Andy Lau, Tony Leung Chiu Wai, Anthony Wong Chau-Sang, Eric Tsang, Kelly Chen, Sammi Cheng, Edison Chen, Shawn Yue, Elva Hsiao
Ano: 2002
País: Hong Kong
Duração: 101 min

Mal saiu a notícia de que Martin Scorsese estava filmando uma versão americana de “Infernal Affairs”, um dos maiores sucessos recentes do gênero policial realizado em Hong Kong, tendo Jack Nicholson, Matt Damon, Leonardo DiCaprio, Martin Sheen, Mark Wahlberg e Alec Baldwin no elenco chamada “The Departed”, o filme asiático foi lançado diretamente nas locadoras brasileiras pela Buena Vista com 3 anos de atraso. Lamentável. A distribuidora deveria ter feito uma estratégia de lançamento aproveitando o intervalo entre “Herói” e “O Clã das Adagas Voadoras”, pois os protagonistas são vividos por dois atores que estão nos filmes citados: Andy Lau e Tony Leung. Além do aguardado encontro entre eles ser concretizado, os entusiastas vibrarão mais ainda quando os excelentes Anthony Wong e Eric Tsang entrarem em cena. Portanto, a presença destes quatro astros que possuem várias realizações de fundamental importância para o cinema chinês já garante, por si só, a qualidade do filme.

O início da trama mostra o chefão do crime Sam (Eric Tsang) recrutando Lau (Edison Chen), um jovem capanga, para entrar na academia de polícia e ser seu informante dentro da corporação. Enquanto isso, o promissor oficial Chan (Shawn Yue) é enviado pelo Superintendente Wong (Anthony Wong) e se infiltra na gangue de Sam com a mesma função. 10 anos depois, os dois homens (agora interpretados respectivamente por Andy Lau e Tony Leung) conquistaram uma forte confiança dentro das instituições e dos seus novos chefes, mesmo desempenhando o verdadeiro trabalho de maneira exemplar. Tudo muda quando os recrutantes desconfiam da existência de um traidor dentro dos seus grupos, fazendo com que Lau e Chan passem a se dedicar numa incansável busca pelo outro. Chan é uma pessoa bastante profissional por passar tanto tempo infiltrado, mas sofrida. Ele deseja sair desse trabalho o mais rápido possível para deixar de sujar as mãos com os crimes cometidos pelo grupo e por isso, participa de sessões de psiquiatria com a Dra. Lee (Kelly Chen, que, além de linda, demonstra competência). Já Lau vive muito bem e tem uma amada noiva chamada Mary (Sammi Cheng). Para ele, Chan seria uma forte ameaça capaz de eliminar todas as suas conquistas com a maior facilidade.

Enriquecido pelo constante duelo de atuações entre os quatro ótimos atores, “Conflitos Internos” é outra das muitas surpresas do moderno cinema oriental e o ressurgimento internacional dos filmes policiais chineses. O longa fez tanto sucesso no seu país de origem que gerou produtos diversos – inclusive canecas – e duas elogiadas seqüências filmadas simultaneamente em 2003. Apesar da nítida impressão de aproveitar o sucesso recente para faturar em cima, elas tem o objetivo de desenvolver ainda mais os seus personagens. A primeira é uma “prequel” mostrando o que aconteceu a Lau e Chan (vividos por Chen e Yue) nos anos “pulados” do filme original, com Wong e Tsang reprisando os seus papéis. Já o terceiro da série revela-se uma verdadeira seqüência, concentrada nos eventos ocorridos após a conclusão do primeiro filme e Leon Lai, dono de presença memorável como um matador profissional em “Anjos Caídos” de Wong Kar-Wai, está no elenco.

É também cinema policial de alta qualidade, chegando a lembrar Michael Mann no seu notável “Fogo Contra Fogo” e o francês “36”, pelos personagens e seus conflitos internos – conforme diz o título nacional – serem o foco principal. Isso faz com que o filme não seja mais outro espetáculo descartável que Jerry Bruckheimmer e Michael Bay gostam tanto de fazer onde milhões são torrados para usar e abusar da pirotecnia desnecessária ao rechear uma nulidade de história com muita destruição, tiros e explosões. A direção de Andrew Lau e Alan Mak é bem satisfatória neste tenso e humanizado jogo de gato e rato, cujo roteiro mostra a sua forte identidade oriental e budista quando cita o verso 19 do Nirvana Sutra no final da abertura: “O pior dos 8 infernos é o inferno contínuo. Ele significa o sofrimento contínuo”. No decorrer do filme, a afirmação faz o espectador refletir quando percebe que os protagonistas estão vivendo, de fato, este sofrimento.

Mesmo possuindo todos esses pontos positivos, “Conflitos Internos” não é perfeito. Justamente pela questão comercial, dá para notar algumas manobras feitas no roteiro com o objetivo de que ele não chegue aos 120 minutos de duração. Por um lado, foi bom pela força e impacto deixados para a realização dos outros filmes da trilogia. Por outro lado, foi ruim pelo fato deles até agora não terem distribuição confirmada no Brasil. O jeito é importar os discos originais de DVD, adquirir cópias dos mesmos a um custo bem reduzido ou então, usar da baixaria nos “p2p” da vida como Emule, Torrent e ShareAza, pois daqui que as grandes distribuidoras se toquem, muita coisa legal já terá sido assistida e descoberta por nós.

Osvaldo Neto

36 (36 Quai des Orfèvres)

Filed under: Sala de Tiro — cineprojeto365 @ 7:42 pm

(originalmente publicado no extinto site Erotikill)
36.jpg

Direção: Olivier Marchal
Elenco: Daniel Auteuil, Gérard Depardieu, André Dussollier, Roschdy Zem, Valeria Golino, Daniel Duval, Francis Renaud, Catherine Marchal, Guy Lecluyse e Alain Figlarz
Ano: 2004
País: França
Duração: 104 min

Deixou de ser espantoso saber que a maioria dos lançamentos cinematográficos vindos fora dos Estados Unidos estejam acima da média atual. Também pudera, Hollywood está fazendo jus ao seu título de “máquina de fazer filmes”. Todo ano, ela lança inúmeras produções possuindo astros, de peso ou não, com o único interesse de caçar níqueis. Eis que no Brasil chega “36”, um belo exemplar de cinema comercial de qualidade realizado na França.

A produção é concentrada no cotidiano dos policiais Léo Vrinks (Daniel Auteuil), líder da BRI (Brigade de Recherche et d’Intervention, um esquadrão anti-gangues) e Denis Klein (Gérard Depardieu), líder da BRB (Brigade de Répression du Banditisme, esquadrão que investiga grandes roubos). Eles convivem diariamente com o outro, mesmo sendo fortes inimigos pessoais devido a um antigo acontecimento particular. Para piorar, o Chefe de Polícia Robert Mancini (André Dussolier) irá se aposentar e os considera seus favoritos para ascender ao cargo. Nenhum deles presta.

Numa das cenas, Vrinks, que inclusive é casado com Camille (Valeria Golino) e tem uma filha, leva um criminoso de carro para matar algum desafeto em troca de informações sobre a gangue de assaltantes de carro forte procurada pelas duas divisões. O homem ainda conta com seus parceiros inseperáveis Titi Brasseur (Francis Renaud) e Eddy Valence (Daniel Duval, que contracenou com Auteuil no memorável “Caché”, de Michael Haneke). O que se pode dizer de um sujeito amargurado e repulsivo como Klein? Depois do expediente, o sujeito vive enchendo a cara nos bares parisienses e sempre tenta, de alguma maneira, se vingar aos poucos do colega de corporação. Percebe-se, portanto, que o futuro dos dois oficiais será marcado por trágicas conseqüências.

Tido por alguns como o “Fogo Contra Fogo” francês, “36” também possui uma trama policial protagonizada por dois grandes astros do seu país de origem e um roteiro que prefere focar os personagens ao invés da ação. Isso não adiantaria de nada, se não tivéssemos aqui uma direção equilibrada, alternando de maneira precisa momentos dramáticos com outros violentos, envoltos por uma belíssima trilha sonora. Além de dirigir, Olivier Marchal também colaborou no roteiro, utilizando a sua experiência como ex-policial ao lado de Dominique Loiseau, ex-membro da BRI.

Em termos de atuações, o filme pode se considerar bem servido. Bons personagens como Vrinks e Klein merecem ser representados por atores de nível e nem sequer dá para imaginar que os escolhidos poderiam fazer feio. 3 anos depois do sucesso internacional de “O Closet”, Marchal promoveu o reencontro de Auteuil e Depardieu para interpretarem papéis bem diferentes. Como é bacana ver Gérard Depardieu realmente usando o seu talento na construção de um personagem que aparenta ter sido escrito pensando nele. Auteuil é um ator digno de maior reconhecimento internacional, basta conferir seus desempenhos neste e no recente “Caché” para ter uma noção do quanto ele ainda pode nos surpreender. Outro ponto positivo da produção é mostrar uma Paris dominada pelo crime (mesmo deixando muito da sujeira quietinha para não enfeiar o visual) como pano de fundo.

“36” tem as suas falhas (repare no segundo ato da história) e alguns furos no roteiro. Mesmo assim, é impossível entender como algo tão bom e acima da média atual não possua a divulgação merecida e nem sequer tenha distribuidor nos Estados Unidos. Todos os fãs brasileiros do bom cinema notam que a maioria das distribuidoras não enxergam o potencial qualitativo dos seus lançamentos. Isso é fato, basta lembrar de baboseiras como “Stealth”, “Sahara” e “Amigo Oculto” às vezes ocupando salas por mais de um mês nos cinemas, enquanto “Narc”, “Conflitos Internos” (apenas citando dois dos melhores policiais feitos nos últimos anos), “Shaun of the Dead” e este “36”, vão parar direto nas prateleiras das locadoras. Uma verdadeira injustiça.

Osvaldo Neto

Blog no WordPress.com.