Cineprojeto 365

12 junho, 2007

Fantasmas de Marte (John Carpenter’s Ghosts of Mars)

Filed under: Galeria do Terror — cineprojeto365 @ 8:50 pm

(originalmente publicado no extinto site Erotikill)
ghostsposter.jpg

Direção: John Carpenter
Elenco: Natasha Henstridge, Ice Cube, Jason Statham, Clea DuVall, Pam Grier, Joanna Cassidy, Richard Cetrone, Rosemary Forsyth, Liam Waite, Peter Jason e Robert Carradine
Ano: 2001
País: EUA
Duração: 95 min

Sabe daqueles dias em que você está cansado de filmes sérios e tem vontade de conferir uma bobagem legal? Num deles, fiquei com o DVD nas mãos, olhei a capinha, ela olhou para mim, acabei não resistindo e levando para casa. Quando a abertura começou com a sempre eficiente trilha do próprio diretor, pensei: Tomara que seja um baita filmeco classe “B” de grande orçamento. Percebi ter acertado na escolha em menos de 10 minutos de filme. Não sei por que fiquei tanto tempo sem assistir a essa obra de John Carpenter mesmo sendo fã do sujeito, “Fantasmas de Marte” é ótima pedida para quem busca uma boa e violenta diversão.

Tudo acontece no ano de 2026, quando os humanos colonizaram o planeta Marte. A oficial Melanie Ballard (Natasha Henstridge) é encontrada sozinha, dormindo e algemada num trem vazio guiado por piloto automático. Intimada a um interrogatório, Ballard narra os eventos acontecidos durante a fatídica missão na qual fora enviada. Comandado por Helena Braddock (Pam Grier, a eterna musa do blacksploitation), o seu grupo também composto por Jericho Butler (Jason Statham), Bashira Kincaid (Clea DuVall) e Michael Descanso (Liam Waite) teve a tarefa de transferir James “Desolation” Williams (Ice Cube) para uma prisão de segurança máxima. Porém, chegando na cidade, acabaram estranhando a ausência de movimento do local. Entrando nos estabelecimentos, os policiais observam o fruto de um verdadeiro massacre. Os únicos sobreviventes são os prisioneiros na delegacia, entre eles, uma prostituta, Williams e Dra. Arlene Whitlock (Joanna Cassidy), uma cientista. Após algum tempo, todos percebem a existência de uma estranha forma de vida na colônia, possuindo seres humanos e os transformando em violentos guerreiros marcianos prontos para exterminar qualquer outra pessoa da mesma espécie.

O filme pode ser visto como uma variação futurista do clássico “Assalto à 13ª DP”, com personagens superando suas diferenças e unindo forças para sobreviver. Neste caso, todos são tipinhos já conhecidos: Ballard é a típica mulher-macho, Butler se acha o gostosão e Williams é aquele criminoso que ninguém sabe ser digno ou não de confiança, já que está participando do combate contra a ameaça exterior.

Lembrando as saudosas gemas dos anos 80, a produção não se leva a sério em momento algum. O espectador afeito com o estilo fica grudado na tela por conferir atuações adequadas do notável elenco de caras conhecidas (tem até Robert Carradine, de “A Vingança dos Nerds”, em pequena participação e Rex Linn, numa daquelas aparições “piscou, perdeu”), um roteiro repleto de diálogos divertidos assumindo sua aura “B” e a excelente mão de Carpenter para cenas de ação e terror. O visual dos vilões é outro achado. Eles parecem ter saído diretamente de um show do Marilyn Manson, cuja semelhança com o seu líder não deve ser mera coincidência, para os sets de filmagem. Prepare-se também para conferir ótimos efeitos especiais, onde destaco os “frisbees” assassinos lançados pelos marcianos a fim de mutilar os protagonistas.

“Fantasmas de Marte” só não pode ser chamado de descerebrado, pois Carpenter inseriu no roteiro, com maestria e sem prejudicar no entretenimento, sua opinião a respeito do mundo atual. Tudo pode ser busca de pêlo em casca de ovo por parte deste que vos escreve, mas mesmo assim, creio que ele critique qualquer forma de invasão (seja militar, ideológica ou cultural) do imperialismo norte-americano aos países pobres e subdesenvolvidos. O realizador acredita na chegada de um dia no qual seus habitantes não irão mais agüentar, reagindo de maneira brutal contra a insistência deste sistema. Salve, João Carpinteiro. O profeta que nós, fãs do cinema fantástico, fazemos questão de ser seguidores!!

Osvaldo Neto

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À Beira da Loucura (In the Mouth of Madness)

Filed under: Galeria do Terror — cineprojeto365 @ 5:29 pm

(originalmente publicado em http://br.groups.yahoo.com/group/NSI_CineAnalise/)
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Direção: John Carpenter
Elenco: Sam Neill, Julie Carmen, Charlton Heston, Jurgen Prochnow, David Warner, John Glover, Bernie Casey, Peter Jason, Hayden Christensen
Ano: 1995
País: EUA
Duração: 95 min

I. Introdução

O cineasta norte-americano John Carpenter é considerado por muitos
um mestre do cinema de horror, a despeito de alguns de seus filmes
pertencerem a outros gêneros, como a aventura e ação, a ficção
científica e até mesmo a comédia. Entretanto, suas maiores
influências são os westerns das décadas de 40 e 50, em especial os
dirigidos por Howard Hawks.

“À Beira da Loucura”, tido por muitos como seu filme mais autoral, é
o que mais se afasta da influência dos westerns. Carpenter assume o
rótulo de “mestre do horror”, e vai buscar influências na obra de
outro grande mestre do gênero, o escritor do início do século XX, H.
P. Lovecraft.

O filme de Carpenter pode ser analisado como uma parábola sobre a
criação artística e as responsabilidades que este poder de criar
implicam, experiência apresentada através de um esquema de negações
e afirmações do autor durante a estória, algumas explícitas, outras
não.

O primeiro exemplo de negação é explícita, e se dá logo no início do
filme, quando, no hospício, começa a tocar uma música ambiente e o
protagonista resmunga “Oh, não, não os Carpenters também…”. Trata-
se de uma clara alusão do diretor ao seu próprio nome, o mesmo da
dupla pop-romântica formada pelos irmãos Carpenters na década de 70.
É uma espécie de segundo alerta aos espectadores: este é um filme de
John Carpenter! (o primeiro alerta já é feito nos créditos
iniciais: “John Carpenter’s In the Mouth of Madness”).

II. Além da beira da loucura

O filme começa com o personagem John Trent, interpretado pelo
neozelandês Sam Neill, sendo internado em um manicômio. Como a
maioria dos loucos, ele agride os enfermeiros na tentativa de se
libertar, alegando não ser insano.

Após um lapso de tempo, vemos Trent aceitando sua condição de louco,
pintando cruzes sobre as paredes do quarto acolchoado onde está
preso. Quando o psiquiatra chega para entrevistá-lo, ele narra sua
história.

John Trent era um bem sucedido detetive particular, especializado em
detectar fraudes à companhias de seguro. Ele é contratado para
investigar o caso de um segurado de grande porte, uma editora de
livros. O escritor de livros de terror Sutter Cane (Jurgen Prochnow)
desapareceu com sua mais recente obra às vésperas de ser publicada e
aguardada ansiosamente pelos fãs.

Sutter Cane é um verdadeiro fenômeno literário. Seus livros chegam a
causar reações histéricas nos leitores. Podemos perceber aqui uma
certa crítica do diretor à idolatria extrema a artistas por parte
das massas.

III. A Investigação

Trent acredita que o desaparecimento de Cane trata-se de uma jogada
de marketing da editora para aumentar o mito em torno do escritor, e
conseqüentemente, as vendas de seu novo livro. Empenhado em
desmascarar a farsa, o detetive começa sua investigação lendo todos
os livros de Cane. Observando uma linha vermelha que segue o mesmo
padrão nas capas de todos os livros, ele descobre um mapa camuflado,
apontando a localização de uma cidade que ele deduz ser Hobb’s End,
a cidade fictícia onde se passam as estórias. Ele é enviado junto
com a editora de Cane, Linda Styles (Julie Carmen), para investigar
a cidade.

Durante a viagem, Trent e Styles têm uma conversa sobre
realidade/ficção e sanidade/insanidade. Ela prevê o desfecho do
detetive – que já pudemos ver no início do filme – com idéias que
nos remetem ao conto “O Alienista” de Machado de Assis: “sanidade e
insanidade podem mudar de lado se os loucos se tornarem maioria”.

Como que justificando a natureza de sua criação autoral, Carpenter
destila suas razões através de Styles, enquanto relega o papel de
cético à Trent, que menospreza a obra de Cane, por ela ser
extremamente ficcional – mesmo posicionamento da grande maioria das
pessoas em relação ao gênero “terror”. Assim, o cineasta dialoga com
os detratores de sua obra, fazendo da editora a sua porta-voz. Ela
explica que o prazer em admirar esse tipo de literatura está em
imaginar que o ponto de vista do autor é real.

É curioso que o protagonista do filme, o herói escolhido por
Carpenter para enfrentar as forças do mal, seja a personificação das
idéias dos inimigos de sua obra. Podemos interpretar tal escolha,
talvez, como mais uma auto-negação dentro da narrativa lúdica do
filme.

IV. Bem vindo a Hobb’s End

Após uma seqüência bastante irreal no carro onde a estrada
desaparece e o carro flutua sob as nuvens (uma provocação aos
detratores do cinema fantástico, uma afirmação do poder autoral
absoluto, ou ambos?), o casal finalmente encontra Hobb’s End. A
cidade é exatamente como descrita nos livros de Cane, incluindo os
personagens.

Styles percebe que os acontecimentos estão se desenrolando
exatamente como nos livros, mas o cético Trent acha que tudo não
passa de encenação, montada pela companhia para aumentar a
publicidade do novo livro.

Na estória escrita por Cane, todas as crianças da cidade ficam
possuídas por algo, e passam a cometer atrocidades. Os habitantes da
cidade, semiconscientes de suas condições de marionetes de Cane,
culpam o escritor por todos os acontecimentos. Este se encontra
dentro de uma enorme catedral em estilo otomano, totalmente
inadequada à arquitetura de uma pequena cidade situada na Nova
Inglaterra. A presença dessa catedral, além de ser mais uma
afirmação do poder do autor, trata-se de uma referência “invertida”
ao filme “The Devil’s Rain” (1975), de Robert Fuest. Naquele filme,
havia uma igreja construída em estilo arquitetônico da Nova
Inglaterra, porém situada no meio de uma `cidade fantasma’ do oeste
norte-americano. O filme de Fuest também tem como enredo principal a
dominação do mundo por forças demoníacas.

Styles foge e vai ao encontro de Cane. Ela a faz ler o livro,
revelando o grande segredo: o escritor esteve preparando o mundo,
através de seus livros, para a chegada de criaturas da escuridão
(demônios?). Após ler o livro e compreender que nada mais é do que
uma das ferramentas criadas por Cane, Styles enlouquece.

Mais acontecimento estranhos, como a aparição de criaturas bizarras,
começam a fazer Trent duvidar de suas convicções, mas sem perder sua
natureza cética – a negação do poder de criação.

Em uma cena em particular, ele encontra um dos cidadãos preste a se
matar, que se justifica: “eu tenho que fazer isso; `ele’ me escreveu
desse jeito”. É o confronto entre a afirmação (poder autoral) e a
negação (Trent).

O detetive tenta fugir da cidade, mas a estrada sempre o traz de
volta. Após diversas tentativas, ele direciona o carro rumo à
multidão, mas desvia quando Styles aparece inesperadamente na sua
frente. O carro colide, e Trent fica inconsciente.

VI. Criador e Criatura

Trent recobra a consciência dentro de uma cabine de confissão. Do
outro lado, uma forte luz anuncia a chegada de seu criador. Mais uma
vez, Capenter utiliza um personagem – agora, Cane – para defender
seus pontos de vista, no caso, sobre religião. Segundo ele, as
religiões buscam disciplinar os fies através do medo, não através da
revelação divina (a verdadeira natureza da criação). E isso não é
suficiente para torná-las reais. O mundo criado por Cane,
entretanto, tornou-se tão popular, com tantas pessoas acreditando
nele, que finalmente tornara-se real.

Esta passagem nos lembra do episódio vivido por John Lennon em
meados de 1965, quando a imprensa publicou uma declaração sua de que
os Beatles eram maiores que Jesus Cristo. O compositor, mais tarde,
alegou que fora citado fora de contexto, pois na verdade, se referia
ao fato de que mais pessoas na terra ouviam suas músicas do que liam
a Bíblia.

De qualquer forma, a declaração foi suficiente para que cristãos
extremistas o acusassem de adorador do diabo, promovendo protestos
em diversas cidades dos EUA, com queimas de discos e fotos dos
Beatles em praça pública, cartazes ofensivos, passeatas, etc. Uma
clara demonstração da manutenção da disciplina religiosa através do
medo.

Uma frase de Cane torna evidente a referência ao acontecido com
Lennon: “mais pessoas acreditam em meu trabalho do que na Bíblia”.

Trent ainda se recusa a acreditar nos acontecimentos à sua volta,
tentando buscar uma explicação racional. Podemos ver o olhar de
Cane, enquanto ele admira sua criação, fiel à fôrma em que fora
moldado. O escritor, finalmente, explica o objetivo do livro:
enlouquece as pessoas que o lêem, estas passam a acreditar na
estória. E quando as pessoas não forem mais capazes de distinguir a
realidade e a fantasia, os “antigos” poderão retornar à terra. A
conversão de novos crentes dará poder para esse retorno.

Entendemos que o vago termo utilizado, “antigos” (“old ones”), é
clara alusão a um dos elementos da obra de Lovecrafti (“unspeakable
evil”), nos levando a presumir que são criaturas demoníacas há muito
banidas da terra.

O escritor revela a missão para a qual o detetive havia sido criado:
levar o livro de Hobb’s End para o mundo real.

Na cena onde John Trent olha através do buraco, Styles começa a ler
o livro, descrevendo exatamente o que acontece. Carpenter se abstém
de aventurar a câmera pelo mundo das trevas, emulando o poder de
sugestão próprio da arte literária.

O detetive retorna ao mundo real, e tenta se livrar do livro,
acreditando que destruindo o original, salvaria o mundo. De volta ao
escritório do executivo da editora (Charlton Heston), este diz que
Trent já havia lhe entregue o original há meses, que o livro já
havia inclusive sido publicado, com a adaptação cinematográfica
prestes a sair. Mais uma vez, Cane alterou a estória (intervenção
divina: o autor é Deus para sua obra), garantindo a seqüência de
seus planos.

Desolado, Trent vaga pelas ruas, onde multidões se enfileiram nas
portas das livrarias, atrás do novo livro de Cane. Num acesso de
loucura, ele mata a machadadas um dos leitores, e retornamos ao
hospício do início do filme. A entrevista com o psiquiatra termina.

Durante a noite, algo acontece no do lado de fora do quarto do
detetive no hospício. Ele ouve gritos e grunhidos, vê sombras de
pessoas sendo atacadas por criaturas. Quando termina, a porta do
quarto se abre, e ele vê o hospital deserto, e destruído.

Trent deixa o hospício com o som de um rádio ao fundo, onde uma
transmissão de emergência reporta as ondas de histeria coletivas em
diversas localidades – uma citação ao clássico de 1968, “A Noite dos
Mortos Vivos”, de George Romero. Vagando pela cidade também
destruída e abandonada, ele chega a um cinema onde está sendo
exibido o filme do livro de Cane, “À Beira da Loucura”. As cenas que
sucedem na tela repetem os acontecimentos do filme. Diante delas,
ele gargalha insanamente, e o filme termina.

VII. Conclusão

“À Beira da Loucura” conclui a chamada “trilogia do apocalipse” de
John Carpenter, iniciada com “O Enigma de Outro Mundo” (1982) e
continuada em “O Príncipe das Trevas” (1987). As estórias desses
três filmes não têm qualquer relação entre si, sendo o único ponto
em comum o fato de terminarem com um prenúncio do fim da raça
humana – o apocalipse.

Ao contrário da abordagem extremamente gráfica de “O Enigma de Outro
Mundo”, em “À Beira da Loucura” o cineasta opta por não mostrar
explicitamente as criaturas e cenas mais violentas no filme. Como
previamente mencionado, trata-se do uso do poder de sugestão e da
exploração do imaginário, com a indução de idéias, dando espaço para
que o espectador forme suas próprias imagens em suas mentes, sem
utilizar-se de cenas explícitas que não dão margem a interpretações
visuais. Essa opção, além de econômica em termos de produção –
Carpenter se tornou expert em “enxugar” orçamentos – tem o objetivo
de emular a experiência de se ler um livro. Ele mostra apenas um
pouco a mais do necessário para fazer seu filme funcionar, e a
grande parte fica a cargo da imaginação de quem assiste.

Dentro do esquema proposto no início desta análise, o fato de dar
liberdade de imaginação ao espectador é uma negação do que ele
afirma durante a maior parte do filme: o poder absoluto do autor. E
com essa guerra de pontos de vista, John Carpenter conseguiu criar
seu filme mais autoral, mesmo que no fundo os espectadores mereçam
uma parcela de crédito na autoria desta interessante experiência
cinematográfica, para aqueles que se dispõem a ingressar nela. Aos
que não pretendem afastar-se da superfície, resta apenas um simples
filme de horror, e a frase “Oh, não, não John Carpenter…”.

Fábio S. Ribeiro
Rio de Janeiro, 15 de fevereiro de 2003.

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