Cineprojeto 365

13 junho, 2007

Keoma

Filed under: Sala de Tiro — cineprojeto365 @ 2:10 pm

(originalmente publicado no extinto site Erotikill)
keoma.jpg

Direção: Enzo G. Castellari
Elenco: Franco Nero, William Berger, Olga Karlatos, Gabriella Giacombe, Orso Maria Guerrini, Antonio Marsina, Joshua Sinclair, Donald O’ Brian e Woody Strode
Ano: 1976
País: Itália
Duração: 102 min

Na metade dos anos 70, a era dos bangues-bangues italianos já estava entrando em decadência. Com a ausência de filmes realizados pelos seus maiores expoentes, os três Sergios (Leone, Corbucci e Sollima), o ciclo passou a apresentar cada vez mais produções ausentes de criatividade e inovação. Lógico que existiam algumas raras exceções, como o violento e anti-convencional “Os 4 do Apocalipse”, realizado por Lucio Fulci em 1975. No entanto, elas não conseguiriam tirar o subgênero do ostracismo.

Foi quando Franco Nero, Enzo G. Castellari e Manolo Bolognini, (produtor de “Django”, o clássico de Sergio Corbucci que fez Nero ficar mundialmente conhecido) se reuniram com a intenção de realizar aquele que seria o último dos Spaghetti Westerns, devido ao declínio do estilo. Isso só não foi possível porque depois deste filme vieram outros como “Vingança Cega” (Mannaja / 1977) de Sergio Martino e “A Volta do Pistoleiro” (China 9, Liberty 37 / 1978) de Monte Hellman. O astro Giuliano Gemma ainda atacou com “Sela de Prata” (Silver Saddle / 1978) de Lucio Fulci. Enfim, “Keoma” pode até não ser o último dos Spaghetti Westerns, mas com certeza tem tudo para ser tido como um dos últimos (senão o) dos clássicos desta época inesquecível do cinema italiano.

Mal o longa começa e vemos o quanto Castellari estava inspirado. As primeiras imagens mostram – através do bater e voltar constante de uma porta – um sujeito andando a cavalo em nossa direção. O espectador percebe aos poucos que o homem (Franco Nero) se encontra numa verdadeira cidade fantasma, daquelas cobertas por neblina e sem o menor sinal de vida. É quando uma velha misteriosa (Gabriella Giacombe) o aborda e ambos travam um diálogo – sabido de cor e salteado pelos fãs – fazendo com que ele parta logo em seguida. A anciã acaba sendo deixada para trás gritando desesperadamente “KEOMA!! KEOMA!! KEOMA!!” e surgem os créditos iniciais com o personagem cavalgando sem destino ao som da famosa (e detestada por algumas pessoas) música-tema.

Keoma é filho de Shannon (uma bela participação de William Berger) com uma índia e criado com a ajuda de George (Woody Strode, ator que fez sua fama em faroestes marcantes como “Os Profissionais”), um escravo negro. Muitos anos depois, quando o meio-índio volta a sua cidade natal – e tudo aquilo descrito acima acontece – desejando reencontrar estas duas pessoas figuras paternas após batalhar na Guerra Civil, percebe que ela está dominada pelo opressor Caldwell (o malvadão Donald O’ Brien) e que seus três meios-irmãos Butch (Orso Maria Guerrini), Sam (Antonio Marsina) e Lenny (Joshua Sinclair) estão entre os muitos capangas do poderoso homem. Cabe a Keoma lutar contra Caldwell, que ordena a desumana transferência de pessoas portadoras ou suspeitas de ter “a peste” para uma velha mina (entre elas, temos uma mulher grávida interpretada pela grega Olga Karlatos, protagonista da cena mais famosa de “Zombie”), defendendo os populares da exploração dos bandidos e conseqüentemente, contra o trio de pistoleiros.

Com um roteiro possuidor de todos os requisitos para uma clássica trama do gênero, um elenco dos sonhos de qualquer fã do gênero, uma bela cinematografia a cargo de Aiace Parolin, uma trilha sonora interessante e estranha (composta por Guido e Maurizio De Angelis, cantada em sua maioria e que – um tanto desnecessariamente – narra eventos do filme) ao mesmo tempo e cenas inesquecíveis, Enzo G. Castellari realizou uma obra notável. O diretor, que ficou mais conhecido pelas suas pérolas oitentistas como “Fuga do Bronx”, “Guerreiros do Futuro” e “1990 – Os Guerreiros do Bronx”, sempre demonstrou talento na narrativa das suas produções. Em “Keoma”, conhecemos um pouco da infância do personagem principal através de flashbacks, que revelam um pouco do seu relacionamento com o pai, o escravo e o sofrimento causado pelos seus meios-irmãos, tentando justificar as suas atitudes. Através deles, sabemos que Butch, Sam e Lenny nunca gostaram de Keoma desde o primeiro dia em que ele foi residir na fazenda do pai após sobreviver a um massacre na sua tribo e ser resgatado pelo próprio, pois acreditam que o “índio maldito” roubou grande parte do amor paterno destinado a eles. Então, nada mais normal do que os quatro entrarem em conflito quando adultos.

Há várias referências e a maioria delas remetem ao bom e clássico faroeste americano no roteiro (onde Luigi Montefiori, mais conhecido como George Eastman, astro dos exploitations italianos e queridinho de Castellari e Joe D’Amato, é autor do argumento e co-roteirista) e na direção. A começar pelas famosas cenas de violência em câmera lenta – como a inesquecível morte do primeiro bandido executado por Keoma, onde vemos o sangue, literalmente, voar dos buracos efetuados pelo disparo – homenageando Sam Peckinpah e que viraram marca registrada de Castellari. Shannon, o ex-pistoleiro bom e justo, é simplesmente um Shane (quem gosta mesmo de bangue-bangue e não reparou na semelhança do nome, merece levar um peteleco daqueles na orelha!!) envelhecido. A forte presença de Woody Strode no elenco de qualquer bangue-bangue italiano (incluindo “Era Uma Vez no Oeste”, uma das obras-primas de Sergio Leone) prova a influência destes realizadores e reforça a de Castellari e Eastman, por alguns dos clássicos americanos, principalmente os de John Ford. Tem ainda a velha aparecendo constantemente para o herói, considerada um misto da Morte em “O Sétimo Selo” e da bruxa de “Macbeth”.

Quem não estiver gostando do que está assistindo, poderá se redimir nos últimos 40 minutos. Além da famosa cena dos quatro dedos, eles contém uma seqüência com 10 minutos de ação ininterrupta onde Keoma, George e Shannon combatem Caldwell e seus homens. Nesse inteirim, o protagonista também enfrentará seus meios-irmãos. Neste momento em especial, dirigido de maneira totalmente inesperada e com excelente uso do som, a violência é utilizada para fazer o espectador refletir sobre a importância da vida. Bravíssimo, Sr. Castellari.

Quando Keoma chega ao fim, fica fácil entender o motivo pelo qual ele continue sendo considerado de grande importância para os fãs de faroeste italiano e alguns estudiosos da sétima arte. Longe de querer ser comparado aos ídolos, Enzo G. Castellari nos deixou um filme especial que, embora tenha suas falhas, foi explicitamente feito por quem ama o gênero para outras pessoas que compartilham o mesmo sentimento. Imperdível.

NA: Entre os fãs de Castellari, talvez o mais famoso seja Quentin Tarantino, que trabalhava numa locadora antes da fama e assistia a qualquer coisa lançada enquanto atendia os clientes. O seu próximo projeto após o aguardado “Grindhouse” deverá ser “Inglorious Bastards”, supostamente baseado na aventura de guerra de mesmo título dirigida por Castellari e que tem Bo Svenson e Fred Williamson no elenco. Aliás, nos filmes de (ou com o dedo de) Tarantino, o que não falta no elenco é figurinha carimbada do cinema exploitation, seja ele italiano ou americano. Em Kill Bill, podemos ver Svenson sendo o padre do casamento da Noiva e em Um Drink no Inferno, temos Williamson interpretando Frost.

Osvaldo Neto

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1 Comentário »

  1. eu gostei da outra versão mais eu gostaria d ver esse mais não tem pra baixar mito menos pare se compra

    Comentário por keoma — 10 julho, 2010 @ 11:06 pm


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