Cineprojeto 365

27 junho, 2007

novo provedor

Filed under: Uncategorized — cineprojeto365 @ 6:29 pm

Pedimos desculpas aos usuários do UOL, pois o provedor de hospedagem anterior estava bloqueando inexplicavelmente esses usuários. Presumimos que agora corra tudo certo com este novo provedor.

Agradecemos a paciência de vocês.

Anúncios

13 junho, 2007

últimas atualizações

Filed under: Uncategorized — cineprojeto365 @ 3:42 pm

infelizmente, as resenhas postadas abaixo são as últimas que serão incluídas neste site, pois, embora permaneça no ar, ele não será mais atualizado a partir desta data.

agradecemos a visita dos nossos leitores que têm nos acompanhado desde o começo.

valeu pessoal!

Estevão Augusto, webmaster
http://filmescopio.amplarede.com.br/

Os Quatro do Apocalipse (I Quattro dell’apocalisse / The Four of the Apocalypse / Four Gunmen of the Apocalypse / Four Horsemen of the Apocalypse)

Filed under: Sala de Tiro — cineprojeto365 @ 2:43 pm

(originalmente publicado no extinto site Erotikill)
4apocalypse.jpg

Direção: Lucio Fulci
Elenco: Fabio Testi, Lynne Frederick, Michael J. Pollard, Harry Baird, Adolfo Lastretti, Bruno Corazzari, Giorgio Trestini, Donald O’Brien, Tomas Milian
Ano: 1975
País: Itália
Duração: 104 min

O ciclo italiano de faroestes tem vários títulos interessantes que merecem ser conhecidos por qualquer fã de cinema. Não seria exagero nenhum dizer que “Os Quatro do Apocalipse” é um deles. Mesmo que o estilo já estivesse apresentando sinais de desgaste em 1975, Lucio Fulci – que na época nem sonhava em ser cultuado como diretor de filmes de terror – realizou um espetáculo memorável, violento (é lógico…) e muito anti-convencional. Tanto que devo assumir que o filme deve desagradar a vários espectadores.

No início, vemos o galante jogador de cartas Stubby Preston (o ótimo Fabio Testi) chegando na cidade de Salt Flat, em Utah. O sujeito mal desce da carruagem e é logo abordado pelo xerife (Donald O’ Brien, em participação especial), que revira as suas coisas e o prende. Na cela, ele conhece a prostituta Bunny (a bela Lynne Frederick), o alcoólatra Clem (Michael J. Pollard, figuraça) e Bud (Harry Baird), um homem negro que não gira muito bem da cabeça e diz conversar com os mortos. Durante a madrugada, um grupo armado e encapuzado extermina sumariamente todos os criminosos que estavam se divertindo nos bares. Só pela violência desta seqüência em particular (aqui, os tiros sangram mesmo!!), já podemos notar que estamos assistindo a um faroeste sem o menor tradicionalismo.

Na manhã seguinte, e mediante o pagamento de uma forçada propina ao homem da lei, Stubby e seus três novos companheiros partem numa velha carroça a caminho de Saint City, onde conhecerão várias pessoas. Enquanto continuam o seu trajeto, eles cruzam com Chaco (o cubano Tomas Milian, sempre presença) um tipo estranho, de boa pontaria e que se veste como um “hippie”. Amizade, companheirismo, drogas, estupro, ódio, romance, tortura, vingança e até mesmo canibalismo são algumas das coisas e sentimentos que estarão presentes durante toda a jornada dos personagens principais. Há ainda espaço para simbolismo religioso, quando os personagens principais entram numa cidade dominada pela neve, algo que chega a lembrar o inesquecível “O Vingador Silencioso”.

O leitor deve ter notado que “Os Quatro do Apocalipse” são, na verdade, esses quatro perdedores. Protagonistas de uma espécie de “road-movie” no Velho Oeste americano, Stubby, Bunny, Clem e Bud vivem à mercê do destino e arriscando as suas vidas a todo instante. Chaco aparece querendo se juntar ao grupo, prometendo que não faltará comida enquanto ele estiver com o quarteto, pelo fato de ser um exímio atirador. Todos aceitam, sem sequer imaginar os infortúnios que terão de enfrentar por causa dele. Os pobres acabaram se esquecendo daquele velho ditado popular: “De boas intenções, o inferno está cheio”. Naquela que talvez seja a cena mais comentada do filme, nós vemos o quanto Chaco é cruel. Depois de efetuar um disparo certeiro em um xerife (Lorenzo Robledo, não creditado, que também sofre no clássico “Por Uns Dólares a Mais”) que os perseguia, ele o amarra numa árvore e começa a arrancar tiras da pele do coitado com uma faca!!

“Os Quatro do Apocalipse” respira anos 70, provando que o cinema é uma arte que expressa o momento histórico, social e cultural da época das suas produções. Tomemos a trilha sonora e o psicótico Chaco como exemplo. A maioria das músicas compostas por Fabio Frizzi, Franco Bixio e Vince Tempera são bem “hippongas”, cantadas e viajantes. Muitos as consideram um ponto fraco (eu, inclusive), mas pode-se até dizer que sem elas o filme não teria a sua constante e eficiente atmosfera de estranheza. Quanto ao personagem de Milian, só quem não prestar atenção deixa de perceber que ele foi inspirado em Charles Manson, o sádico responsável pelo assassinato da linda atriz Sharon Tate, que estava grávida do seu marido Roman Polanski.

O resultado final é uma produção única (assim como várias outras…) da extensa filmografia de Lucio Fulci, por ser um dos poucos filmes que conseguem ser bonitos, mesmo tendo a sua elevada dose de violência. Merece muito ser conhecido, e caso você acabe não gostando, acredito que as atuações e algumas belas imagens registradas pela câmera de Sergio Salvati possam muito bem compensar o tempo do espectador.

NA: O DVD nacional lançado pela Works é recomendadíssimo, apesar da costumeira ausência de extras. Apresentado em sua melhor versão, numa cópia integral com imagem em widescreen anamórfico extraída do disco da distribuidora americana Anchor Bay, o disco é uma bela aquisição que pode ser encontrada nas Lojas Americanas por meros R$ 9,99.

Osvaldo Neto

Missão Laser (Laser Mission)

Filed under: Poltrona R — cineprojeto365 @ 2:27 pm

(originalmente publicado no extinto site Erotikill)
lasermission.jpg

Direção: BJ Davis (Beau Davis)
Elenco: Brandon Lee, Debi Monahan, Ernest Borgnine, Graham Clarke, Werner Pochath, Pierre Knoessen, Maureen Lahoud
Ano: 1990
País: EUA
Duração: 84 min

Quem espera grande coisa de uma produção cujo título sequer chama a atenção mesmo tendo relação direta com a história? Some isso ao fato de termos Brandon Lee em sua estréia no cinema americano e Ernest Borgnine juntos numa mistureba ingênua de ação e ficção científica. E ainda temos a música-tema sendo executada mais de 5 vezes em todo o filme, levando o espectador a crer que David Knopfler (irmão de Mark Knopfler e ex-Dire Straits) não recebeu o suficiente para elaborar uma trilha sonora completa.

Brandon Lee (que teria uma provável bela carreira interrompida devido ao seu brutal falecimento durante as filmagens de “O Corvo”) é Michael Gold, um mercenário norte-americano enviado a um país ditatorial fictício com o propósito de contatar o professor Braun (Ernest Borgnine, mandando ver no falso sotaque alemão) e lhe propor asilo nos Estados Unidos. Braun possui o projeto de uma arma à laser guardada na memória, que só pode ser elaborada com a inclusão de um famoso e caro diamante roubado no início do filme. Gold promete liberdade total e segurança no seu novo lar, pois a criação não pode cair em mãos erradas. Durante a conversa, ambos acabam atingidos por dados tranquilizantes no pescoço. Aprisionado pelo horrendo (no mal sentido…) Coronel Kalishnakov (Graham Clarke) e sem idéia do paradeiro do simpático senhor, resta ao mercenário aturar um guarda tosco dizendo “We cut off your head mañana!!”, escapar da cela, falar com seus contratantes e iniciar uma missão de resgate.

Requisitos como os descritos acima fazem qualquer produçãozinha ser diversão garantida para os apreciadores de um bom filme ruim. “Missão Laser” pode ser visto como um belo cartão de visitas para as filmecos fuleiros do gênero que infestaram os cinemas e as prateleiras das locadoras nos anos 80. O leitor deve estar se perguntando: – Peraí, mas ele não foi feito em 1990? Exatamente, o roteiro é uma tremenda colcha de retalhos de todos os clichês e besteiras destas saudosas produções. O básico do básico está presente: o moçinho fodão que pouco está ligando para as situações perigosas, a gatinha ajudante (aqui, Debi Monahan), o vilão imbecil, os personagens cômicos sem a menor graça e um veterano decadente fazendo participação especial.

E tome queijo. Numa fuga em cima dos telhados de uma residência, Michael Gold cai na sala de jantar desta, quebrando tudo. Depois de se levantar sem sofrer um mísero arranhão, ele segue rumo a concluir seu objetivo, quando olha o casal assustado e diz: – Só vim aqui para dizer… bom apetite!! Com tamanha esculhambação, fica impossível não sentir pena ao ver Ernest Borgnine, astro de obras do porte de “Os Doze Condenados”, “Meu Ódio Será Sua Herança” e “O Imperador do Norte” (só para citar três…) encarando furadas deste nível para faturar uns trocados. Já os vilões Graham Clarke e Werner Pochath (falecido em 1993, vítima da AIDS) mostraram que são bons profissionais. Deveriam ter observações assim no roteiro: para quem for Kalishnakov, seja bem ridículo; para quem for Eckhardt, seja mais ridículo ainda e tente fazer umas expressões faciais toscas para mostrar a insanidade do personagem. Eles conseguiram.

Algo que não deve ser cobrado em “Missão Laser” é lógica. Acreditem, depois de um cena de tiroteio no meio urbano, os protagonistas seguem rumo a estrada e vão parar num deserto!! Também não dá para decifrar onde diabos se passa a história. O país tem a aparência de ser localizado na África, com o idioma falado sem definição entre inglês e espanhol (alguns falam só o idioma britânico ou latino e outros, como o guarda tosco, misturam os dois) e escritos em português. Falando nisso, todos os sotaques dos atores americanos interpretando estrangeiros são um ponto a mais para o fator trash da produção.

Enfim, apesar da ruindade geral, o filme tem um bom visual graças aos cenários escolhidos pelos produtores. Mas isso pouco importa. O importante mesmo é que “Missão Laser” diverte quem curte ficar tirando sarro das babaquices enquanto confere alguma bobagem inofensiva de vez em quando (senão o cérebro atrofia hehehe).

NA: 01 – Infelizmente, dá para notar que alguns momentos foram editados pela censura como uma decapitação, uma cena de sexo e a morte de um dos principais vilões. Segundo um usuário no IMDb, a versão sem cortes é a intitulada “Soldier of Fortune”.

02 – Os direitos de copyright do longa caíram em domínio público. Então, qualquer um que adquira uma cópia do filme pode distribuí-lo a vontade que não tem bronca com a lei. Segue um link para download desta pérola via este excelente site especializado em torrents de filmes em domínio público: http://www.publicdomaintorrents.com/

Osvaldo Neto

Keoma

Filed under: Sala de Tiro — cineprojeto365 @ 2:10 pm

(originalmente publicado no extinto site Erotikill)
keoma.jpg

Direção: Enzo G. Castellari
Elenco: Franco Nero, William Berger, Olga Karlatos, Gabriella Giacombe, Orso Maria Guerrini, Antonio Marsina, Joshua Sinclair, Donald O’ Brian e Woody Strode
Ano: 1976
País: Itália
Duração: 102 min

Na metade dos anos 70, a era dos bangues-bangues italianos já estava entrando em decadência. Com a ausência de filmes realizados pelos seus maiores expoentes, os três Sergios (Leone, Corbucci e Sollima), o ciclo passou a apresentar cada vez mais produções ausentes de criatividade e inovação. Lógico que existiam algumas raras exceções, como o violento e anti-convencional “Os 4 do Apocalipse”, realizado por Lucio Fulci em 1975. No entanto, elas não conseguiriam tirar o subgênero do ostracismo.

Foi quando Franco Nero, Enzo G. Castellari e Manolo Bolognini, (produtor de “Django”, o clássico de Sergio Corbucci que fez Nero ficar mundialmente conhecido) se reuniram com a intenção de realizar aquele que seria o último dos Spaghetti Westerns, devido ao declínio do estilo. Isso só não foi possível porque depois deste filme vieram outros como “Vingança Cega” (Mannaja / 1977) de Sergio Martino e “A Volta do Pistoleiro” (China 9, Liberty 37 / 1978) de Monte Hellman. O astro Giuliano Gemma ainda atacou com “Sela de Prata” (Silver Saddle / 1978) de Lucio Fulci. Enfim, “Keoma” pode até não ser o último dos Spaghetti Westerns, mas com certeza tem tudo para ser tido como um dos últimos (senão o) dos clássicos desta época inesquecível do cinema italiano.

Mal o longa começa e vemos o quanto Castellari estava inspirado. As primeiras imagens mostram – através do bater e voltar constante de uma porta – um sujeito andando a cavalo em nossa direção. O espectador percebe aos poucos que o homem (Franco Nero) se encontra numa verdadeira cidade fantasma, daquelas cobertas por neblina e sem o menor sinal de vida. É quando uma velha misteriosa (Gabriella Giacombe) o aborda e ambos travam um diálogo – sabido de cor e salteado pelos fãs – fazendo com que ele parta logo em seguida. A anciã acaba sendo deixada para trás gritando desesperadamente “KEOMA!! KEOMA!! KEOMA!!” e surgem os créditos iniciais com o personagem cavalgando sem destino ao som da famosa (e detestada por algumas pessoas) música-tema.

Keoma é filho de Shannon (uma bela participação de William Berger) com uma índia e criado com a ajuda de George (Woody Strode, ator que fez sua fama em faroestes marcantes como “Os Profissionais”), um escravo negro. Muitos anos depois, quando o meio-índio volta a sua cidade natal – e tudo aquilo descrito acima acontece – desejando reencontrar estas duas pessoas figuras paternas após batalhar na Guerra Civil, percebe que ela está dominada pelo opressor Caldwell (o malvadão Donald O’ Brien) e que seus três meios-irmãos Butch (Orso Maria Guerrini), Sam (Antonio Marsina) e Lenny (Joshua Sinclair) estão entre os muitos capangas do poderoso homem. Cabe a Keoma lutar contra Caldwell, que ordena a desumana transferência de pessoas portadoras ou suspeitas de ter “a peste” para uma velha mina (entre elas, temos uma mulher grávida interpretada pela grega Olga Karlatos, protagonista da cena mais famosa de “Zombie”), defendendo os populares da exploração dos bandidos e conseqüentemente, contra o trio de pistoleiros.

Com um roteiro possuidor de todos os requisitos para uma clássica trama do gênero, um elenco dos sonhos de qualquer fã do gênero, uma bela cinematografia a cargo de Aiace Parolin, uma trilha sonora interessante e estranha (composta por Guido e Maurizio De Angelis, cantada em sua maioria e que – um tanto desnecessariamente – narra eventos do filme) ao mesmo tempo e cenas inesquecíveis, Enzo G. Castellari realizou uma obra notável. O diretor, que ficou mais conhecido pelas suas pérolas oitentistas como “Fuga do Bronx”, “Guerreiros do Futuro” e “1990 – Os Guerreiros do Bronx”, sempre demonstrou talento na narrativa das suas produções. Em “Keoma”, conhecemos um pouco da infância do personagem principal através de flashbacks, que revelam um pouco do seu relacionamento com o pai, o escravo e o sofrimento causado pelos seus meios-irmãos, tentando justificar as suas atitudes. Através deles, sabemos que Butch, Sam e Lenny nunca gostaram de Keoma desde o primeiro dia em que ele foi residir na fazenda do pai após sobreviver a um massacre na sua tribo e ser resgatado pelo próprio, pois acreditam que o “índio maldito” roubou grande parte do amor paterno destinado a eles. Então, nada mais normal do que os quatro entrarem em conflito quando adultos.

Há várias referências e a maioria delas remetem ao bom e clássico faroeste americano no roteiro (onde Luigi Montefiori, mais conhecido como George Eastman, astro dos exploitations italianos e queridinho de Castellari e Joe D’Amato, é autor do argumento e co-roteirista) e na direção. A começar pelas famosas cenas de violência em câmera lenta – como a inesquecível morte do primeiro bandido executado por Keoma, onde vemos o sangue, literalmente, voar dos buracos efetuados pelo disparo – homenageando Sam Peckinpah e que viraram marca registrada de Castellari. Shannon, o ex-pistoleiro bom e justo, é simplesmente um Shane (quem gosta mesmo de bangue-bangue e não reparou na semelhança do nome, merece levar um peteleco daqueles na orelha!!) envelhecido. A forte presença de Woody Strode no elenco de qualquer bangue-bangue italiano (incluindo “Era Uma Vez no Oeste”, uma das obras-primas de Sergio Leone) prova a influência destes realizadores e reforça a de Castellari e Eastman, por alguns dos clássicos americanos, principalmente os de John Ford. Tem ainda a velha aparecendo constantemente para o herói, considerada um misto da Morte em “O Sétimo Selo” e da bruxa de “Macbeth”.

Quem não estiver gostando do que está assistindo, poderá se redimir nos últimos 40 minutos. Além da famosa cena dos quatro dedos, eles contém uma seqüência com 10 minutos de ação ininterrupta onde Keoma, George e Shannon combatem Caldwell e seus homens. Nesse inteirim, o protagonista também enfrentará seus meios-irmãos. Neste momento em especial, dirigido de maneira totalmente inesperada e com excelente uso do som, a violência é utilizada para fazer o espectador refletir sobre a importância da vida. Bravíssimo, Sr. Castellari.

Quando Keoma chega ao fim, fica fácil entender o motivo pelo qual ele continue sendo considerado de grande importância para os fãs de faroeste italiano e alguns estudiosos da sétima arte. Longe de querer ser comparado aos ídolos, Enzo G. Castellari nos deixou um filme especial que, embora tenha suas falhas, foi explicitamente feito por quem ama o gênero para outras pessoas que compartilham o mesmo sentimento. Imperdível.

NA: Entre os fãs de Castellari, talvez o mais famoso seja Quentin Tarantino, que trabalhava numa locadora antes da fama e assistia a qualquer coisa lançada enquanto atendia os clientes. O seu próximo projeto após o aguardado “Grindhouse” deverá ser “Inglorious Bastards”, supostamente baseado na aventura de guerra de mesmo título dirigida por Castellari e que tem Bo Svenson e Fred Williamson no elenco. Aliás, nos filmes de (ou com o dedo de) Tarantino, o que não falta no elenco é figurinha carimbada do cinema exploitation, seja ele italiano ou americano. Em Kill Bill, podemos ver Svenson sendo o padre do casamento da Noiva e em Um Drink no Inferno, temos Williamson interpretando Frost.

Osvaldo Neto

12 junho, 2007

Fantasmas de Marte (John Carpenter’s Ghosts of Mars)

Filed under: Galeria do Terror — cineprojeto365 @ 8:50 pm

(originalmente publicado no extinto site Erotikill)
ghostsposter.jpg

Direção: John Carpenter
Elenco: Natasha Henstridge, Ice Cube, Jason Statham, Clea DuVall, Pam Grier, Joanna Cassidy, Richard Cetrone, Rosemary Forsyth, Liam Waite, Peter Jason e Robert Carradine
Ano: 2001
País: EUA
Duração: 95 min

Sabe daqueles dias em que você está cansado de filmes sérios e tem vontade de conferir uma bobagem legal? Num deles, fiquei com o DVD nas mãos, olhei a capinha, ela olhou para mim, acabei não resistindo e levando para casa. Quando a abertura começou com a sempre eficiente trilha do próprio diretor, pensei: Tomara que seja um baita filmeco classe “B” de grande orçamento. Percebi ter acertado na escolha em menos de 10 minutos de filme. Não sei por que fiquei tanto tempo sem assistir a essa obra de John Carpenter mesmo sendo fã do sujeito, “Fantasmas de Marte” é ótima pedida para quem busca uma boa e violenta diversão.

Tudo acontece no ano de 2026, quando os humanos colonizaram o planeta Marte. A oficial Melanie Ballard (Natasha Henstridge) é encontrada sozinha, dormindo e algemada num trem vazio guiado por piloto automático. Intimada a um interrogatório, Ballard narra os eventos acontecidos durante a fatídica missão na qual fora enviada. Comandado por Helena Braddock (Pam Grier, a eterna musa do blacksploitation), o seu grupo também composto por Jericho Butler (Jason Statham), Bashira Kincaid (Clea DuVall) e Michael Descanso (Liam Waite) teve a tarefa de transferir James “Desolation” Williams (Ice Cube) para uma prisão de segurança máxima. Porém, chegando na cidade, acabaram estranhando a ausência de movimento do local. Entrando nos estabelecimentos, os policiais observam o fruto de um verdadeiro massacre. Os únicos sobreviventes são os prisioneiros na delegacia, entre eles, uma prostituta, Williams e Dra. Arlene Whitlock (Joanna Cassidy), uma cientista. Após algum tempo, todos percebem a existência de uma estranha forma de vida na colônia, possuindo seres humanos e os transformando em violentos guerreiros marcianos prontos para exterminar qualquer outra pessoa da mesma espécie.

O filme pode ser visto como uma variação futurista do clássico “Assalto à 13ª DP”, com personagens superando suas diferenças e unindo forças para sobreviver. Neste caso, todos são tipinhos já conhecidos: Ballard é a típica mulher-macho, Butler se acha o gostosão e Williams é aquele criminoso que ninguém sabe ser digno ou não de confiança, já que está participando do combate contra a ameaça exterior.

Lembrando as saudosas gemas dos anos 80, a produção não se leva a sério em momento algum. O espectador afeito com o estilo fica grudado na tela por conferir atuações adequadas do notável elenco de caras conhecidas (tem até Robert Carradine, de “A Vingança dos Nerds”, em pequena participação e Rex Linn, numa daquelas aparições “piscou, perdeu”), um roteiro repleto de diálogos divertidos assumindo sua aura “B” e a excelente mão de Carpenter para cenas de ação e terror. O visual dos vilões é outro achado. Eles parecem ter saído diretamente de um show do Marilyn Manson, cuja semelhança com o seu líder não deve ser mera coincidência, para os sets de filmagem. Prepare-se também para conferir ótimos efeitos especiais, onde destaco os “frisbees” assassinos lançados pelos marcianos a fim de mutilar os protagonistas.

“Fantasmas de Marte” só não pode ser chamado de descerebrado, pois Carpenter inseriu no roteiro, com maestria e sem prejudicar no entretenimento, sua opinião a respeito do mundo atual. Tudo pode ser busca de pêlo em casca de ovo por parte deste que vos escreve, mas mesmo assim, creio que ele critique qualquer forma de invasão (seja militar, ideológica ou cultural) do imperialismo norte-americano aos países pobres e subdesenvolvidos. O realizador acredita na chegada de um dia no qual seus habitantes não irão mais agüentar, reagindo de maneira brutal contra a insistência deste sistema. Salve, João Carpinteiro. O profeta que nós, fãs do cinema fantástico, fazemos questão de ser seguidores!!

Osvaldo Neto

Edison – Poder e Corrupção (Edison)

Filed under: Rango de Boteco — cineprojeto365 @ 8:35 pm

(originalmente publicado no extinto site Erotikill)
edison-poster-0.jpg

Direção: David J. Burke
Elenco: Morgan Freeman, LL Cool J, Justin Timberlake, Kevin Spacey, Dylan McDermott, Cary Elwes, Piper Perabo, Roselyn Sanchez, Bryan Genesse, Robert Miano, Françoise Yip
Ano: 2005
País: EUA/Canadá
Duração: 97 min

Como eu gostaria de estar presente na noite da pré-estréia de “Edison – Poder e Corrupção” nos cinemas da minha cidade. Seria muito legal partilhar os comentários sarcásticos do pessoal na fila pelo fato de irem assistir a um filme onde Morgan Freeman e Kevin Spacey contracenam com Justin Timberlake. Isso mesmo, você não leu errado. Aquele bocó do grupinho N’Sync agora está inventando de ser ator. Quem será que viu talentos dramáticos neste sujeito? Já, já, o leitor irá saber. Papo vem, papo vai e a projeção começa. O meu principal motivo de querer conferir o longa naquele dia, é saber qual seria a minha reação quando a logomarca da Millennium Films aparecesse na tela grande. Provavelmente, eu soltaria um PQP ou botava a mão na boca para controlar uma sonora gargalhada, evitando ser o centro das atenções na sala. Críticos do Brasil, se liguem-se. Só quem leva a sério as produções da Millennium Films/NU Image, que enche as locadoras com os recentes filmes de Steven Seagal e coisas tipo “SharkMan”, “LarvaMan”, “MosquitoMan” e “Skeleton Man”, são os próprios produtores. Não é à toa que “Edison – Poder e Corrupção” seja uma fita policial da mais convencionais feita com o único propósito de caçar-níqueis das fãs do cantor pop.

Numa das madrugadas da cidade fictícia de Edison, Deed (LL Cool J) e Lazerov (Dylan McDermott), dois oficiais da F.R.A.T. – espécie de S.W.A.T. – invadem uma residência abandonada e abordam dois traficantes. Depois de recolherem todo o dinheiro e drogas do local, matam um dos criminosos devido a sua resistência. O sobrevivente colabora com os tiras e é levado para a Justiça tendo base na história criada por Lazerov. No final do julgamento, o jovem jornalista Joshua Pollock (Justin Timberlake) vê o réu agradecer Deed. Intrigado, o ambicioso rapaz – que sonha em ganhar o Pullitzer – parte em busca da verdade, assistenciado pelo seu patrão Ashford (Morgan Freeman) e o investigador público Wallace (Kevin Spacey), para investigar a F.R.A.T., que é chefiada por Tillman (John Heard).

Há tempos não via tanto talento desperdiçado num verdadeiro festival de mediocridade como este “Edison – Poder e Corrupção”. A começar pela pavorosa escolha de Justin Timberlake para interpretar o protagonista, a única esperança de que o longa seria no mínimo bom é o restante do elenco. Porém, ela acaba indo por água abaixo quando vemos que os outros atores estão mais perdidos do que Dennis Hopper em “Waterworld”. Morgan Freeman e Kevin Spacey deviam estar tão desesperados atrás de dinheiro para pintar a garagem ou pagar o crediário que nem deviam ter lido o roteiro. Os dois possuem alguns dos momentos mais constrangedores de todas as suas carreiras. Numa delas, Ashford expulsa Pollock do seu apartamento para ficar sozinho e dançar!! De quebra, ainda temos um caricato John Heard e LL Cool J sendo ele mesmo.

Dylan McDermott, por sua vez, é o mais esforçado e acaba salvando um pouco o filme da desgraça total. Pena que sua presença em cena seja reduzida. Agora, dos dois restantes, precisa adivinhar quem seria o pior? Cary Elwes ou Justin Timberlake? O último conseguiu a proeza de superar a canastrice de Elwes, basta checar a hilária cena na qual o seu promotor Reigert grita com Wallace (reparem na cara de preocupação de Spacey!!) no escritório. Ainda bem que o ator tem só uns 10 minutos de participação se juntarmos tudo. Faziam anos que não me indignava com um desempenho tão sofrível, abominável e horripilante como o de Justin Timberlake. Impossível acreditar que David J. Burke tenha escrito o papel pensando nele. Cruz credo!! Além de ter uma vozinha irritante, o cara é muito ruim. E modéstia à parte, quem está falando isso é um aficcionado por filmecos baratos, portanto, alguém extremamente acostumado com atuações ridículas.

Desde os primeiros minutos, a produção vai caindo nas idiotices do roteiro (escrito pelo próprio diretor) até não poder mais. “Edison…” tem os vilões mais imbecis da história do cinema recente. Não dá para engolir que eles sintam ameaça num artigo que será escrito sem nenhuma evidência concreta contra o seu esquema de corrupção por um jornalistazinho meia-tigela de folhetim. Apesar de Joshua sofrer de extrema incompetência (numa cena, ele só liga o gravador depois que sua principal testemunha – um marginal encarcerado – fala algo de comprometedor para a F.R.A.T.), os babacas atacam o protagonista, comprovando tudo que ele apenas pensava anteriormente. Palmas para o brilhantismo de Burke em sua estréia cinematográfica!! E quanto a sua direção de telefilme, extremamente malhada pela crítica, confesso já ter visto bem piores.

Satisfazer a curiosidade mórbida de conferir um elenco consagrado pagando tamanho mico numa produção totalmente equivocada sempre é algo divertidíssimo para quem curte cinema classe B. Somando tudo, “Edison – Poder e Corrupção” já é considerado por muitos como um futuro clássico trash. Ele também só pode ser levado a sério por quem não sabe desfrutar de uma boa tralha quando a reconhece. Caso você tenha ficado com vontade de assistir este filme, aqui vai um recado: Não gaste seu suado dinheirinho para ver nos cinemas, espere ele ser lançado como deveria… nas locadoras.

PS: Fanáticos por fitas B, me ajudem!!! Fiquei indignado por não ter encontrado dois rostinhos sagrados destas produções cujos nomes estão nos créditos finais: Bryan Genesse e Robert Miano. Será que eles estão na “director’s cut”?

Osvaldo Neto

Blast! (Blast!)

Filed under: Sala de Tiro — cineprojeto365 @ 8:23 pm

(originalmente publicado no extinto site Erotikill)
blast1ur7kb.jpg

Direção: Anthony Hickox
Elenco: Eddie Griffin, Vinnie Jones, Breckin Meyer, Soup, Shaggy, Nadine Velazquez, Hannes Jaenicke, Tommy ‘Tiny’ Lister, Warwick Grier, Vivica A. Fox, Nicky Andrews, Paul Du Toit, Langley Kirkwood, Dean Slater
Ano: 2004
País: EUA/Alemanha/África do Sul
Duração: 91 min

O atual cinema de entretenimento se encontra repleto de diretores sem qualquer senso de como se deve contar uma determinada história. Eles são os responsáveis pela proliferação de tantas produções destinadas a públicos menos exigentes em conferir uma boa narrativa. Infelizmente, a juventude está tão acostumada a sair de casa para assistir longos videoclipes filmados em película exagerando nos planos fechados, cortes rápidos e cheios de tiros, explosões e belas modelos seminuas (ei, isso é bom!) divulgados como filmes de ação. O sucesso garantido de bilheteria faz com que os produtores contratem estes verdadeiros paus mandados que sequer nutrem a menor admiração pelo cinema. “Blast!” não é nenhuma maravilha da sétima arte, por ser uma simplória e ligeira diversão com um elenco mais interessado em curtir as filmagens do que atuar. Mas ao assistí-lo, fica claro que ele seria mais uma bomba se não fosse pela condução de Anthony Hickox.

A introdução mostra o bombeiro Lamont Dixon (Eddie Griffin) tentando salvar a vida do seu parceiro e melhor amigo durante um grande incêndio, porém seus esforços são insuficientes. Os anos se passam e vemos que Dixon conseguiu a guarda de Eric (Nicky Andrews), o filho do falecido. Ele é contratado pelo inescrupuloso Heller (o alemão Hannes Jaenicke, presente em vários “direto-para-vídeo” americanos, principalmente os de Fred Olen Ray e Jim Wynorski) para rebocar uma plataforma localizada na costa californiana numa véspera de Natal. No lado de fora, e como de costume, há ambientalistas e simpatizantes protestando contra a saída da navegação.

Quem lidera um destes grupos é o famoso Michael Kittredge (Vinnie Jones, um dos “não-atores” mais bacanas do cinema atual). Depois de tudo, Kittredge inicia outro protesto em um barco, onde ocorre um incêndio acidental. Dixon e seu pessoal se empenham e conseguem salvar todos aqueles que estavam na pequena embarcação. Porém, os resgatados, apesar de se dizerem ambientalistas, possuem intenções nada pacifistas e fazem vários reféns. Não precisa ser gênio para adivinhar que Dixon é uma das poucas pessoas ausentes no momento onde tudo começou e que será ele quem surpreenderá os vilões por enfrentá-los utilizando seu treinamento militar. Entre eles, além de Kittredge, temos um branquelo (Breckin Meyer) chamado Jamal, a latina Luna (a gatinha Nadine Velasquez) e Smiley (Tommy “Tiny” Lister, aquela figura carinhosa de sempre). Heller negocia a situação acompanhado dos agentes federais Reed (Vivica A. Fox) e Phillips (Langley Kirkwood, do tosco “Drácula 3000”).

A partir daí, o filme se torna outra variação de “Duro de Matar”, pelo fato de termos aqui o roteirista do próprio, Steven E. de Souza, mais uma vez escrevendo uma trama – baseada por sua vez num telefilme alemão intitulado “Operation Noah” – com várias características deste clássico do cinema de ação. E os clichês do gênero são constantes: Há o típico capanga babaca (preciso mesmo dizer quem o interpreta no filme?), os agentes que ficam resolvendo tudo numa salinha (geralmente, são papéis que só precisam de uns dois dias de filmagem), as situações envolvendo reféns e o garotinho, os bandidos ameaçando e matando vários inocentes, um homem contra todos os inimigos… enfim, mais fácil para Souza desenvolver o material impossível.

Mesmo tendo atores famosos, nota-se que o filme foi feito com o orçamento padrão da maioria dos “direto-para-vídeo” da Nu Image/Millennium Films e Hickox acabou se rendendo ao uso de trechos de outros filmes na montagem, assim como Wynorski e Olen Ray, para baratear os custos da produção. A utilização de “Cortina de Fogo” é notada logo no início, na seqüência do incêndio e quando entram caças aéreos no final a palavra “Maverick” pode ser lida num deles. Maverick é nada menos que o personagem de Tom Cruise em “Top Gun”.

Enfim, “Blast!” não apresenta nenhuma novidade. Ele tem o típico pirralho chato, alguns furos (um dos capangas principais simplesmente desaparece no decorrer do longa), e ainda leva Eddie Griffin, um sujeito baixinho e de voz divertida de ser ouvida, a sério como herói de ação! Anthony Hickox devia saber que isso é algo impossível quando o escalou, já que o “desempenho” do ator certamente ajuda na diversão. E quem acompanha a sua carreira sabe que ele dá um banho em muitos outros diretores de filmes do gênero pelo seu talento narrativo e criatividade para contornar as limitações orçamentarias. Portanto, caso alguém não tenha nada melhor para fazer numa tarde de sábado ou domingo e está a procura de um filminho de ação rápido e bem realizado, “Blast!” poderá agradar em cheio.

Osvaldo Neto

Conflitos Internos (Mou gaan dou / Wu jian dao / Infernal Affairs)

Filed under: Sala de Tiro — cineprojeto365 @ 8:05 pm

(originalmente publicado no extinto site Erotikill)
infernalaffairs.jpg

Direção: Andrew Lau e Alan Mak
Elenco: Andy Lau, Tony Leung Chiu Wai, Anthony Wong Chau-Sang, Eric Tsang, Kelly Chen, Sammi Cheng, Edison Chen, Shawn Yue, Elva Hsiao
Ano: 2002
País: Hong Kong
Duração: 101 min

Mal saiu a notícia de que Martin Scorsese estava filmando uma versão americana de “Infernal Affairs”, um dos maiores sucessos recentes do gênero policial realizado em Hong Kong, tendo Jack Nicholson, Matt Damon, Leonardo DiCaprio, Martin Sheen, Mark Wahlberg e Alec Baldwin no elenco chamada “The Departed”, o filme asiático foi lançado diretamente nas locadoras brasileiras pela Buena Vista com 3 anos de atraso. Lamentável. A distribuidora deveria ter feito uma estratégia de lançamento aproveitando o intervalo entre “Herói” e “O Clã das Adagas Voadoras”, pois os protagonistas são vividos por dois atores que estão nos filmes citados: Andy Lau e Tony Leung. Além do aguardado encontro entre eles ser concretizado, os entusiastas vibrarão mais ainda quando os excelentes Anthony Wong e Eric Tsang entrarem em cena. Portanto, a presença destes quatro astros que possuem várias realizações de fundamental importância para o cinema chinês já garante, por si só, a qualidade do filme.

O início da trama mostra o chefão do crime Sam (Eric Tsang) recrutando Lau (Edison Chen), um jovem capanga, para entrar na academia de polícia e ser seu informante dentro da corporação. Enquanto isso, o promissor oficial Chan (Shawn Yue) é enviado pelo Superintendente Wong (Anthony Wong) e se infiltra na gangue de Sam com a mesma função. 10 anos depois, os dois homens (agora interpretados respectivamente por Andy Lau e Tony Leung) conquistaram uma forte confiança dentro das instituições e dos seus novos chefes, mesmo desempenhando o verdadeiro trabalho de maneira exemplar. Tudo muda quando os recrutantes desconfiam da existência de um traidor dentro dos seus grupos, fazendo com que Lau e Chan passem a se dedicar numa incansável busca pelo outro. Chan é uma pessoa bastante profissional por passar tanto tempo infiltrado, mas sofrida. Ele deseja sair desse trabalho o mais rápido possível para deixar de sujar as mãos com os crimes cometidos pelo grupo e por isso, participa de sessões de psiquiatria com a Dra. Lee (Kelly Chen, que, além de linda, demonstra competência). Já Lau vive muito bem e tem uma amada noiva chamada Mary (Sammi Cheng). Para ele, Chan seria uma forte ameaça capaz de eliminar todas as suas conquistas com a maior facilidade.

Enriquecido pelo constante duelo de atuações entre os quatro ótimos atores, “Conflitos Internos” é outra das muitas surpresas do moderno cinema oriental e o ressurgimento internacional dos filmes policiais chineses. O longa fez tanto sucesso no seu país de origem que gerou produtos diversos – inclusive canecas – e duas elogiadas seqüências filmadas simultaneamente em 2003. Apesar da nítida impressão de aproveitar o sucesso recente para faturar em cima, elas tem o objetivo de desenvolver ainda mais os seus personagens. A primeira é uma “prequel” mostrando o que aconteceu a Lau e Chan (vividos por Chen e Yue) nos anos “pulados” do filme original, com Wong e Tsang reprisando os seus papéis. Já o terceiro da série revela-se uma verdadeira seqüência, concentrada nos eventos ocorridos após a conclusão do primeiro filme e Leon Lai, dono de presença memorável como um matador profissional em “Anjos Caídos” de Wong Kar-Wai, está no elenco.

É também cinema policial de alta qualidade, chegando a lembrar Michael Mann no seu notável “Fogo Contra Fogo” e o francês “36”, pelos personagens e seus conflitos internos – conforme diz o título nacional – serem o foco principal. Isso faz com que o filme não seja mais outro espetáculo descartável que Jerry Bruckheimmer e Michael Bay gostam tanto de fazer onde milhões são torrados para usar e abusar da pirotecnia desnecessária ao rechear uma nulidade de história com muita destruição, tiros e explosões. A direção de Andrew Lau e Alan Mak é bem satisfatória neste tenso e humanizado jogo de gato e rato, cujo roteiro mostra a sua forte identidade oriental e budista quando cita o verso 19 do Nirvana Sutra no final da abertura: “O pior dos 8 infernos é o inferno contínuo. Ele significa o sofrimento contínuo”. No decorrer do filme, a afirmação faz o espectador refletir quando percebe que os protagonistas estão vivendo, de fato, este sofrimento.

Mesmo possuindo todos esses pontos positivos, “Conflitos Internos” não é perfeito. Justamente pela questão comercial, dá para notar algumas manobras feitas no roteiro com o objetivo de que ele não chegue aos 120 minutos de duração. Por um lado, foi bom pela força e impacto deixados para a realização dos outros filmes da trilogia. Por outro lado, foi ruim pelo fato deles até agora não terem distribuição confirmada no Brasil. O jeito é importar os discos originais de DVD, adquirir cópias dos mesmos a um custo bem reduzido ou então, usar da baixaria nos “p2p” da vida como Emule, Torrent e ShareAza, pois daqui que as grandes distribuidoras se toquem, muita coisa legal já terá sido assistida e descoberta por nós.

Osvaldo Neto

36 (36 Quai des Orfèvres)

Filed under: Sala de Tiro — cineprojeto365 @ 7:42 pm

(originalmente publicado no extinto site Erotikill)
36.jpg

Direção: Olivier Marchal
Elenco: Daniel Auteuil, Gérard Depardieu, André Dussollier, Roschdy Zem, Valeria Golino, Daniel Duval, Francis Renaud, Catherine Marchal, Guy Lecluyse e Alain Figlarz
Ano: 2004
País: França
Duração: 104 min

Deixou de ser espantoso saber que a maioria dos lançamentos cinematográficos vindos fora dos Estados Unidos estejam acima da média atual. Também pudera, Hollywood está fazendo jus ao seu título de “máquina de fazer filmes”. Todo ano, ela lança inúmeras produções possuindo astros, de peso ou não, com o único interesse de caçar níqueis. Eis que no Brasil chega “36”, um belo exemplar de cinema comercial de qualidade realizado na França.

A produção é concentrada no cotidiano dos policiais Léo Vrinks (Daniel Auteuil), líder da BRI (Brigade de Recherche et d’Intervention, um esquadrão anti-gangues) e Denis Klein (Gérard Depardieu), líder da BRB (Brigade de Répression du Banditisme, esquadrão que investiga grandes roubos). Eles convivem diariamente com o outro, mesmo sendo fortes inimigos pessoais devido a um antigo acontecimento particular. Para piorar, o Chefe de Polícia Robert Mancini (André Dussolier) irá se aposentar e os considera seus favoritos para ascender ao cargo. Nenhum deles presta.

Numa das cenas, Vrinks, que inclusive é casado com Camille (Valeria Golino) e tem uma filha, leva um criminoso de carro para matar algum desafeto em troca de informações sobre a gangue de assaltantes de carro forte procurada pelas duas divisões. O homem ainda conta com seus parceiros inseperáveis Titi Brasseur (Francis Renaud) e Eddy Valence (Daniel Duval, que contracenou com Auteuil no memorável “Caché”, de Michael Haneke). O que se pode dizer de um sujeito amargurado e repulsivo como Klein? Depois do expediente, o sujeito vive enchendo a cara nos bares parisienses e sempre tenta, de alguma maneira, se vingar aos poucos do colega de corporação. Percebe-se, portanto, que o futuro dos dois oficiais será marcado por trágicas conseqüências.

Tido por alguns como o “Fogo Contra Fogo” francês, “36” também possui uma trama policial protagonizada por dois grandes astros do seu país de origem e um roteiro que prefere focar os personagens ao invés da ação. Isso não adiantaria de nada, se não tivéssemos aqui uma direção equilibrada, alternando de maneira precisa momentos dramáticos com outros violentos, envoltos por uma belíssima trilha sonora. Além de dirigir, Olivier Marchal também colaborou no roteiro, utilizando a sua experiência como ex-policial ao lado de Dominique Loiseau, ex-membro da BRI.

Em termos de atuações, o filme pode se considerar bem servido. Bons personagens como Vrinks e Klein merecem ser representados por atores de nível e nem sequer dá para imaginar que os escolhidos poderiam fazer feio. 3 anos depois do sucesso internacional de “O Closet”, Marchal promoveu o reencontro de Auteuil e Depardieu para interpretarem papéis bem diferentes. Como é bacana ver Gérard Depardieu realmente usando o seu talento na construção de um personagem que aparenta ter sido escrito pensando nele. Auteuil é um ator digno de maior reconhecimento internacional, basta conferir seus desempenhos neste e no recente “Caché” para ter uma noção do quanto ele ainda pode nos surpreender. Outro ponto positivo da produção é mostrar uma Paris dominada pelo crime (mesmo deixando muito da sujeira quietinha para não enfeiar o visual) como pano de fundo.

“36” tem as suas falhas (repare no segundo ato da história) e alguns furos no roteiro. Mesmo assim, é impossível entender como algo tão bom e acima da média atual não possua a divulgação merecida e nem sequer tenha distribuidor nos Estados Unidos. Todos os fãs brasileiros do bom cinema notam que a maioria das distribuidoras não enxergam o potencial qualitativo dos seus lançamentos. Isso é fato, basta lembrar de baboseiras como “Stealth”, “Sahara” e “Amigo Oculto” às vezes ocupando salas por mais de um mês nos cinemas, enquanto “Narc”, “Conflitos Internos” (apenas citando dois dos melhores policiais feitos nos últimos anos), “Shaun of the Dead” e este “36”, vão parar direto nas prateleiras das locadoras. Uma verdadeira injustiça.

Osvaldo Neto

As Idades De Lulu (Las Edades de Lulu)

Filed under: Cine-Apelação — cineprojeto365 @ 7:15 pm

(originalmente publicado em http://br.groups.yahoo.com/group/NSI_CineAnalise/)
edadeslulu.jpg

Direção: Bigas Luna
Elenco: Francesca Neri, Oscar Ladoire, Maria Barranco, Fernando Guillen, Rosana Pastor, Javier Bardem
Ano: 1990
País: Espanha
Duração: 95 min

Introdução

O cinema espanhol tem se destacado como um dos cinemas mais vigorosos do mundo ocidental. Cineastas como Bigas Luna, Pedro Almodóvar, Álex de la Iglesias e Julio Medem são mestres em sua arte, sempre cheia de excessos e cores vibrantes. Entre eles, Bigas Luna é o que mais se utiliza do sexo e de situações eróticas para cativar a platéia. “As Idades de Lulu”, “Ovos de Ouro”, “A Teta e a Lua”, “Jamon Jamon” são exemplos desse tipo de cinema, mais erotizado, como que para explicitar para o mundo o quanto os espanhóis diferem do resto da Europa quando o assunto é sexo. Bigas Luna também experimentou incursões pelo filme de horror com “Os Olhos da Cidade São Meus”, um filme que causa mal estar e contrasta um pouco com seus outros filmes. “As Idades de Lulu”, tema desta análise, é um dos filmes mais marcantes e mais bem resolvidos de Luna.

A história

Lulu (Francesca Neri) é uma garota normal que tem sua vida mudada quando perde a virgindade com Pablo (Óscar Ladoire). Ela se apaixona por ele, os dois se casam depois de algum tempo, mas continuam experimentando fantasias sexuais, que incluem, até mesmo, caçar travestis pelas ruas. Eles ficam amigos, inclusive, de um travesti. Nos primeiros anos, o casamento significava para eles uma maior liberdade para usar e abusar de suas fantasias e de seus desejos eróticos. Porém, ela passa a desistir do casamento quando, em um de seus jogos numa festa, o marido a põe de olhos vendados, para ser possuída pelo próprio irmão Marcelo (Fernando Guillén Cuervo). Aquilo foi a gota d’água e Lulu se separa de Pablo. Como o sexo já tinha se tornado uma obsessão em sua vida, ela, mesmo sozinha, procura se satisfazer através de vídeos pornográficos, depois transando com casais de homossexuais, até se encontrar numa situação bastante perigosa.

A abordagem

Nada do que foi escrito aí em cima teria valor se Bigas Luna não tivesse um incrível talento para orquestrar as cenas, trabalhar bem a direção de atores e criar climas eróticos como poucos conseguem. Na primeira cena sensual do filme, quando Pablo passa a conquistar Lulu e tentar algo mais que um simples beijo na boca, a maneira como Luna desenvolve a cena é de um realismo impressionante. Há a cena do carro, em que Pablo toca a genitália de Lulu e que culmina numa cena de felação, mesmo sem a vontade dela, às lágrimas. Luna mostra o lado masculino, dominador, que fere, que dá as regras; e o lado feminino, dominado, que sofre a dor da penetração, que é passivo. Lulu, apesar de ir às lágrimas, e, inicialmente, não concordar com a felação, por causa do amor que ela sente por Pablo, ela aceita. O que no início era quase forçado, com o tempo se tornou prazeroso. E o lado mais passivo de Lulu se torna ativo a partir do momento que ela se separa e vai procurar outras formas de prazer.

O elenco

Francesca Neri convence tanto quanto a Lulu adolescente, quanto a Lulu mulher. Ela é italiana e pode ser vista nos filmes “Carne Trêmula”, de Pedro Almodóvar, onde ela faz a protagonista Elena, “Dispara”, de Carlos Saura, e “Hannibal”, de Ridley Scott, como a coadjuvante Allegra Pazzi.

Outro ator bastante conhecido hoje no cinema mundial é Javier Bardem, que nesse filme, aparece como um homossexual e praticante de sadomasoquismo e afins num clube underground de Madrid.

Óscar Ladoire e Fernando Guillém Corvo não tem o mesmo brilho de Francesca Neri, mas os dois desempenham a função de maneira satisfatória. Há que se dar maior destaque, é claro, para Ladoire, que aparece mais tempo em cena e dividiu com Neri as cenas de iniciação sexual. Cenas tão intensas que se tem a impressão de que ele estava mesmo bastante envolvido, para tornar aquilo em algo verdadeiro.

Conclusão

Alguns acusam AS IDADES DE LULU de ser um filme moralista, já que no, final, Lulu larga a vida de excessos para voltar para o marido e a família. Lulu é o símbolo da mulher moderna, livre, mas que tem uma tendência a ser dominada. O filme tem toques de “A História de ‘O’ ” e “Justine” de Sade. Foi baseado no livro homônimo de Almudena Grandes, lançado no Brasil. O filme está nas locadoras em VHS já há bastante tempo. Ainda não está disponível em DVD.

Ailton Monteiro

8 de Maio de 2003

À Beira da Loucura (In the Mouth of Madness)

Filed under: Galeria do Terror — cineprojeto365 @ 5:29 pm

(originalmente publicado em http://br.groups.yahoo.com/group/NSI_CineAnalise/)
mouthmadness.jpg

Direção: John Carpenter
Elenco: Sam Neill, Julie Carmen, Charlton Heston, Jurgen Prochnow, David Warner, John Glover, Bernie Casey, Peter Jason, Hayden Christensen
Ano: 1995
País: EUA
Duração: 95 min

I. Introdução

O cineasta norte-americano John Carpenter é considerado por muitos
um mestre do cinema de horror, a despeito de alguns de seus filmes
pertencerem a outros gêneros, como a aventura e ação, a ficção
científica e até mesmo a comédia. Entretanto, suas maiores
influências são os westerns das décadas de 40 e 50, em especial os
dirigidos por Howard Hawks.

“À Beira da Loucura”, tido por muitos como seu filme mais autoral, é
o que mais se afasta da influência dos westerns. Carpenter assume o
rótulo de “mestre do horror”, e vai buscar influências na obra de
outro grande mestre do gênero, o escritor do início do século XX, H.
P. Lovecraft.

O filme de Carpenter pode ser analisado como uma parábola sobre a
criação artística e as responsabilidades que este poder de criar
implicam, experiência apresentada através de um esquema de negações
e afirmações do autor durante a estória, algumas explícitas, outras
não.

O primeiro exemplo de negação é explícita, e se dá logo no início do
filme, quando, no hospício, começa a tocar uma música ambiente e o
protagonista resmunga “Oh, não, não os Carpenters também…”. Trata-
se de uma clara alusão do diretor ao seu próprio nome, o mesmo da
dupla pop-romântica formada pelos irmãos Carpenters na década de 70.
É uma espécie de segundo alerta aos espectadores: este é um filme de
John Carpenter! (o primeiro alerta já é feito nos créditos
iniciais: “John Carpenter’s In the Mouth of Madness”).

II. Além da beira da loucura

O filme começa com o personagem John Trent, interpretado pelo
neozelandês Sam Neill, sendo internado em um manicômio. Como a
maioria dos loucos, ele agride os enfermeiros na tentativa de se
libertar, alegando não ser insano.

Após um lapso de tempo, vemos Trent aceitando sua condição de louco,
pintando cruzes sobre as paredes do quarto acolchoado onde está
preso. Quando o psiquiatra chega para entrevistá-lo, ele narra sua
história.

John Trent era um bem sucedido detetive particular, especializado em
detectar fraudes à companhias de seguro. Ele é contratado para
investigar o caso de um segurado de grande porte, uma editora de
livros. O escritor de livros de terror Sutter Cane (Jurgen Prochnow)
desapareceu com sua mais recente obra às vésperas de ser publicada e
aguardada ansiosamente pelos fãs.

Sutter Cane é um verdadeiro fenômeno literário. Seus livros chegam a
causar reações histéricas nos leitores. Podemos perceber aqui uma
certa crítica do diretor à idolatria extrema a artistas por parte
das massas.

III. A Investigação

Trent acredita que o desaparecimento de Cane trata-se de uma jogada
de marketing da editora para aumentar o mito em torno do escritor, e
conseqüentemente, as vendas de seu novo livro. Empenhado em
desmascarar a farsa, o detetive começa sua investigação lendo todos
os livros de Cane. Observando uma linha vermelha que segue o mesmo
padrão nas capas de todos os livros, ele descobre um mapa camuflado,
apontando a localização de uma cidade que ele deduz ser Hobb’s End,
a cidade fictícia onde se passam as estórias. Ele é enviado junto
com a editora de Cane, Linda Styles (Julie Carmen), para investigar
a cidade.

Durante a viagem, Trent e Styles têm uma conversa sobre
realidade/ficção e sanidade/insanidade. Ela prevê o desfecho do
detetive – que já pudemos ver no início do filme – com idéias que
nos remetem ao conto “O Alienista” de Machado de Assis: “sanidade e
insanidade podem mudar de lado se os loucos se tornarem maioria”.

Como que justificando a natureza de sua criação autoral, Carpenter
destila suas razões através de Styles, enquanto relega o papel de
cético à Trent, que menospreza a obra de Cane, por ela ser
extremamente ficcional – mesmo posicionamento da grande maioria das
pessoas em relação ao gênero “terror”. Assim, o cineasta dialoga com
os detratores de sua obra, fazendo da editora a sua porta-voz. Ela
explica que o prazer em admirar esse tipo de literatura está em
imaginar que o ponto de vista do autor é real.

É curioso que o protagonista do filme, o herói escolhido por
Carpenter para enfrentar as forças do mal, seja a personificação das
idéias dos inimigos de sua obra. Podemos interpretar tal escolha,
talvez, como mais uma auto-negação dentro da narrativa lúdica do
filme.

IV. Bem vindo a Hobb’s End

Após uma seqüência bastante irreal no carro onde a estrada
desaparece e o carro flutua sob as nuvens (uma provocação aos
detratores do cinema fantástico, uma afirmação do poder autoral
absoluto, ou ambos?), o casal finalmente encontra Hobb’s End. A
cidade é exatamente como descrita nos livros de Cane, incluindo os
personagens.

Styles percebe que os acontecimentos estão se desenrolando
exatamente como nos livros, mas o cético Trent acha que tudo não
passa de encenação, montada pela companhia para aumentar a
publicidade do novo livro.

Na estória escrita por Cane, todas as crianças da cidade ficam
possuídas por algo, e passam a cometer atrocidades. Os habitantes da
cidade, semiconscientes de suas condições de marionetes de Cane,
culpam o escritor por todos os acontecimentos. Este se encontra
dentro de uma enorme catedral em estilo otomano, totalmente
inadequada à arquitetura de uma pequena cidade situada na Nova
Inglaterra. A presença dessa catedral, além de ser mais uma
afirmação do poder do autor, trata-se de uma referência “invertida”
ao filme “The Devil’s Rain” (1975), de Robert Fuest. Naquele filme,
havia uma igreja construída em estilo arquitetônico da Nova
Inglaterra, porém situada no meio de uma `cidade fantasma’ do oeste
norte-americano. O filme de Fuest também tem como enredo principal a
dominação do mundo por forças demoníacas.

Styles foge e vai ao encontro de Cane. Ela a faz ler o livro,
revelando o grande segredo: o escritor esteve preparando o mundo,
através de seus livros, para a chegada de criaturas da escuridão
(demônios?). Após ler o livro e compreender que nada mais é do que
uma das ferramentas criadas por Cane, Styles enlouquece.

Mais acontecimento estranhos, como a aparição de criaturas bizarras,
começam a fazer Trent duvidar de suas convicções, mas sem perder sua
natureza cética – a negação do poder de criação.

Em uma cena em particular, ele encontra um dos cidadãos preste a se
matar, que se justifica: “eu tenho que fazer isso; `ele’ me escreveu
desse jeito”. É o confronto entre a afirmação (poder autoral) e a
negação (Trent).

O detetive tenta fugir da cidade, mas a estrada sempre o traz de
volta. Após diversas tentativas, ele direciona o carro rumo à
multidão, mas desvia quando Styles aparece inesperadamente na sua
frente. O carro colide, e Trent fica inconsciente.

VI. Criador e Criatura

Trent recobra a consciência dentro de uma cabine de confissão. Do
outro lado, uma forte luz anuncia a chegada de seu criador. Mais uma
vez, Capenter utiliza um personagem – agora, Cane – para defender
seus pontos de vista, no caso, sobre religião. Segundo ele, as
religiões buscam disciplinar os fies através do medo, não através da
revelação divina (a verdadeira natureza da criação). E isso não é
suficiente para torná-las reais. O mundo criado por Cane,
entretanto, tornou-se tão popular, com tantas pessoas acreditando
nele, que finalmente tornara-se real.

Esta passagem nos lembra do episódio vivido por John Lennon em
meados de 1965, quando a imprensa publicou uma declaração sua de que
os Beatles eram maiores que Jesus Cristo. O compositor, mais tarde,
alegou que fora citado fora de contexto, pois na verdade, se referia
ao fato de que mais pessoas na terra ouviam suas músicas do que liam
a Bíblia.

De qualquer forma, a declaração foi suficiente para que cristãos
extremistas o acusassem de adorador do diabo, promovendo protestos
em diversas cidades dos EUA, com queimas de discos e fotos dos
Beatles em praça pública, cartazes ofensivos, passeatas, etc. Uma
clara demonstração da manutenção da disciplina religiosa através do
medo.

Uma frase de Cane torna evidente a referência ao acontecido com
Lennon: “mais pessoas acreditam em meu trabalho do que na Bíblia”.

Trent ainda se recusa a acreditar nos acontecimentos à sua volta,
tentando buscar uma explicação racional. Podemos ver o olhar de
Cane, enquanto ele admira sua criação, fiel à fôrma em que fora
moldado. O escritor, finalmente, explica o objetivo do livro:
enlouquece as pessoas que o lêem, estas passam a acreditar na
estória. E quando as pessoas não forem mais capazes de distinguir a
realidade e a fantasia, os “antigos” poderão retornar à terra. A
conversão de novos crentes dará poder para esse retorno.

Entendemos que o vago termo utilizado, “antigos” (“old ones”), é
clara alusão a um dos elementos da obra de Lovecrafti (“unspeakable
evil”), nos levando a presumir que são criaturas demoníacas há muito
banidas da terra.

O escritor revela a missão para a qual o detetive havia sido criado:
levar o livro de Hobb’s End para o mundo real.

Na cena onde John Trent olha através do buraco, Styles começa a ler
o livro, descrevendo exatamente o que acontece. Carpenter se abstém
de aventurar a câmera pelo mundo das trevas, emulando o poder de
sugestão próprio da arte literária.

O detetive retorna ao mundo real, e tenta se livrar do livro,
acreditando que destruindo o original, salvaria o mundo. De volta ao
escritório do executivo da editora (Charlton Heston), este diz que
Trent já havia lhe entregue o original há meses, que o livro já
havia inclusive sido publicado, com a adaptação cinematográfica
prestes a sair. Mais uma vez, Cane alterou a estória (intervenção
divina: o autor é Deus para sua obra), garantindo a seqüência de
seus planos.

Desolado, Trent vaga pelas ruas, onde multidões se enfileiram nas
portas das livrarias, atrás do novo livro de Cane. Num acesso de
loucura, ele mata a machadadas um dos leitores, e retornamos ao
hospício do início do filme. A entrevista com o psiquiatra termina.

Durante a noite, algo acontece no do lado de fora do quarto do
detetive no hospício. Ele ouve gritos e grunhidos, vê sombras de
pessoas sendo atacadas por criaturas. Quando termina, a porta do
quarto se abre, e ele vê o hospital deserto, e destruído.

Trent deixa o hospício com o som de um rádio ao fundo, onde uma
transmissão de emergência reporta as ondas de histeria coletivas em
diversas localidades – uma citação ao clássico de 1968, “A Noite dos
Mortos Vivos”, de George Romero. Vagando pela cidade também
destruída e abandonada, ele chega a um cinema onde está sendo
exibido o filme do livro de Cane, “À Beira da Loucura”. As cenas que
sucedem na tela repetem os acontecimentos do filme. Diante delas,
ele gargalha insanamente, e o filme termina.

VII. Conclusão

“À Beira da Loucura” conclui a chamada “trilogia do apocalipse” de
John Carpenter, iniciada com “O Enigma de Outro Mundo” (1982) e
continuada em “O Príncipe das Trevas” (1987). As estórias desses
três filmes não têm qualquer relação entre si, sendo o único ponto
em comum o fato de terminarem com um prenúncio do fim da raça
humana – o apocalipse.

Ao contrário da abordagem extremamente gráfica de “O Enigma de Outro
Mundo”, em “À Beira da Loucura” o cineasta opta por não mostrar
explicitamente as criaturas e cenas mais violentas no filme. Como
previamente mencionado, trata-se do uso do poder de sugestão e da
exploração do imaginário, com a indução de idéias, dando espaço para
que o espectador forme suas próprias imagens em suas mentes, sem
utilizar-se de cenas explícitas que não dão margem a interpretações
visuais. Essa opção, além de econômica em termos de produção –
Carpenter se tornou expert em “enxugar” orçamentos – tem o objetivo
de emular a experiência de se ler um livro. Ele mostra apenas um
pouco a mais do necessário para fazer seu filme funcionar, e a
grande parte fica a cargo da imaginação de quem assiste.

Dentro do esquema proposto no início desta análise, o fato de dar
liberdade de imaginação ao espectador é uma negação do que ele
afirma durante a maior parte do filme: o poder absoluto do autor. E
com essa guerra de pontos de vista, John Carpenter conseguiu criar
seu filme mais autoral, mesmo que no fundo os espectadores mereçam
uma parcela de crédito na autoria desta interessante experiência
cinematográfica, para aqueles que se dispõem a ingressar nela. Aos
que não pretendem afastar-se da superfície, resta apenas um simples
filme de horror, e a frase “Oh, não, não John Carpenter…”.

Fábio S. Ribeiro
Rio de Janeiro, 15 de fevereiro de 2003.

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.